EM CASA COM MINHA DOR

by - 15.1.09

Meninas,

A primeira crônica de minha autoria que publico aqui no donaperfeitinha é "Em casa com minha dor" - publicada em 2005 no jornal Estado de Minas. Em 2003 perdi meus avós queridos, Dorinha e Zitinho. Minha avó faleceu um mês antes que meu avô e, durante o velório dela - à noite - fiz companhia, junto com meu marido, ao meu avô, num quarto do hospital. Um mês depois, ele se foi também. Mas aquele dia me marcou e, mais tarde, coloquei em palavras alguns sentimentos.


Enquanto o vizinho toca seu piano, alguém por perto chora. A melodia já foi mais alegre outrora. Até o peixinho, coitado, não agüenta mais o choro da mulher do andar de baixo e a faxineira pediu demissão por ordem médica. A orquídea nunca mais floriu, nunca mais foi bela. Os pássaros nunca mais visitaram o bairro. A árvore, que antes era formosa, perdeu toda a sua folhagem. Ninguém desvendou o caso.

            Virou noticiário para a televisão local. A depressão da faxineira foi apenas o primeiro caso confirmado. Ninguém mais trabalhava, nem saía de casa. Era raro o silêncio, assim como o sono ou a fala. Daqui de cima escuto a música e decido não levantar, sei o que isso pode gerar. Um dia, quem sabe, terei forças e chegarei na janela para observar. Meus sentidos se confundem, não sei mais o que é cheiro, o que é som e o que é gosto.

            Ouço uma batida, não me importo. Ouço um grito e o sacolejar de uma cama, não identifico. Parece que a morte chegou, se instalou, mas não quer cumprir com seu dever, pois tem dó. Eu quero voltar a correr. Resta-me apenas dormir para viver de novo o suor, o esforço físico, o cansaço que me acordava para a vida e me impelia a amar, a querer. Quero contar um caso, mas não me permitem. Meu quarto é o maior da casa, mas da posição em que me encontro vejo apenas a porta do banheiro. À minha direita enxergo um vulto e sei que é a poltrona onde adorava me sentar para ouvir música ou ler um livro ou até mesmo namorar.

            Minha neta me faz companhia agora. A dor dela é grande, sei que me ama, sei que está preocupada. Mas prefiro não vê-la mais. Perdi minha esposa. Ela perdeu a avó. Olha pra mim preocupada, querendo falar, mas não fala. Eu sei. Me ama como amou sua avó. E ela sabe, assim como eu sei, o que está pra acontecer. Lágrimas que ainda não cessaram vão voltar aos olhos e escorrer pra terra, sem volta. Ela sofrerá por não se abrir, outros sofrerão por me ver, outros sofrerão até o fim. Eu só quero sentir de novo, aprender de novo. Cheguei a achar que a vida era imanente a mim. Hoje sei que nada mais sei, mas fui feliz e agradeço por tudo que Deus me deu.

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1 comentários

  1. Sabe, tem gente que não acredita que se possa morrer de amor, que um sentimento tão lindo devia trazer vida e não dor, mas acho que depois de se viver muito tempo com quer realmente se ama, uma vida completa, preenchida com todos os seus ciclos, vitórias, derrotas, filhos, netos, até bisnetos as vezes, conquista e mais conquistas ao se olhar pra trás.
    Uma vida assim vale a pena, é plena e incomparável.
    Nessas horas morrer de amor não parece tão ruim assim,e sim um mais um momento de partilha pra quem vai.
    Sofremos nós que ficamos e esperamos um dia preenchermos nossas vidas com 1/3 desse amor.
    Bjs.

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"As redes de pescar palavras são feitas de palavras." Otávio Paz.