CRÔNICA: Profissão não revela quem somos

24.3.09 Talita Cavalcante 2 Comentários

Na época da faculdade escrevia muitas crônicas e quando descobri que havia no Estado de Minas - jornal de maior distribuição no meu estado - um caderno (D+) com uma coluna chamada 'Sua crônica' voltada a publicar crônicas de universitários, enviei 3 das minhas já escritas e tive 2 delas publicadas. Uma delas é a que segue e que achei pertinente publicá-la hoje no dona perfeitinha pelo fato de ultimamente o assunto 'profissão' estar gerando muitas conversas com amigos.

Escrevi essa crônica em 2005 - foi publicada no jornal Estado de Minas em 03 de janeiro de 2006 com meu nome de solteira.

O caderno D+ ainda existe e fica aqui a dica para universitários que gostam de escrever tentarem publicações (veja o e-mail para enviar sua crônica no final da postagem).

Sua Crônica
Profissão não revela quem somos
Talita Lemos - Aluna do 8º período de gestão em hotelaria, turismo e lazer da UNA

Enquanto pensava sobre meu futuro e tentava deixar temores de lado, comecei a refletir sobre minha busca por ser alguém melhor. Parei então para pensar em como estamos cercados por preconceitos. Muitos deles, inclusive, cultivados por nós. Damos mais importância ao que fazemos do que ao que realmente somos ou queremos ser. É possível que muitos não percebam em si mesmos esses preconceitos. Porém, lá estão eles ditando regras de relacionamento, admiração ou rejeição.

 

Pode ser que esse “pequeno” gesto de valorizar as pessoas mais pelo que fazem, e não exatamente pelo que são, seja um traço cultural. Por saber disso, alegro-me em crer que podemos nos posicionar contra essa “regra”. Devemos nos salvar dessa idéia de que alguém não merece valor só por não trabalhar ou por seu trabalho não ser exatamente algo que todos admirem.

Claro que existem profissões com um papel social muito claro, que deixam todos encantados, mas a maioria das profissões cumpre importantes papéis na sociedade e por isso mesmo não devem ser desprezadas. Ninguém é apenas aquilo que faz. Temos nossos valores e sentimentos. Somos seres únicos, apesar de existirem milhões de pessoas com a mesma profissão que nós.

Todos já devem ter respondido a uma pergunta do tipo “o que você é?”. E devem ter respondido algo do tipo “sou advogado”, “sou jornalista”, “sou carpinteiro”, “sou pedreiro”… Agora, pergunto: O que realmente você é? E não estou querendo saber o que faz ou em que trabalha. Quero conhecer um pouco de você no que chamo de essência do ser humano.

Diante dessa pergunta, muitos ficam com dificuldades, pois poucos conhecem de si mesmos. Acho que é hora de pararmos e pensarmos um pouco. Esse valor excessivo que damos aos afazeres profissionais é de alguma forma prejudicial? Digo e sinto que sim. Acho que é por essa razão que, durante o desemprego, somos mais suscetíveis ao isolamento e à sensação de fracasso. As pessoas se afastam de nós e passamos a nos sentir inúteis.

Não somos inúteis. Cada um tem habilidades próprias, que um dia poderão ser usadas em sua profissão ou mesmo ser encaradas como um hobby. Devemos nos ater a quem somos, para que a falta de uma função profissional não nos abale tanto.

Acho um absurdo nosso país tratar seus “senhores e senhoras”, que muito fizeram e muito são, como “encargos sociais”. Um dia vou me aposentar, mas negarei esse título. Acho que todos devemos nos preparar para não sofrer com esse preconceito. Pessoas envelhecem, mas não se tornam inúteis. Claro que ao envelhecer, passamos a ter mais dificuldades, mas somos nós que devemos reconhecer nossos limites. Não devemos sofrer por eles e, muito menos, ser privados de qualquer atividade que desejarmos realizar.

Continuar cultivando a idéia preconceituosa de valorização das pessoas pelo que elas fazem é algo que gerará o mesmo efeito sobre nós mais tarde. Envelheceremos e, então, seremos julgados, preconceituosamente, pelos mais jovens e até mesmo por nossos filhos. Portanto, o que realmente queremos ser?

Para participar

Envie sua crônica e foto para o caderno D+ por e-mail (
nucleo.em@uai.com.br). Podem participar universitários de qualquer curso de graduação. Os textos serão escolhidos e editados após uma seleção prévia

 

 

D+



2 comentários :

  1. Nossa ,que crônica mais linda !!!
    Amei

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  2. olá amiguinha
    tudo bem ?
    seu blogg é show
    e esse texto é uma pérola de conteúdo bem escrito.
    bjssssssssss

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"As redes de pescar palavras são feitas de palavras." Otávio Paz.