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Uma experiência ao lado dos Maxacali, índios de Minas Gerais - Por Ana Paula Castro

Ana Paula Castro é nutricionista. Ela passou algum tempo como voluntária em uma espécie de Posto de Saúde que atende índios da tribo Maxacali. Com grande entusiasmo, ela nos conta sobre as diferenças culturais com que se deparou.


"Um pedacinho de Minas...



Existe um Brasil que poucos conhecem, onde predomina brasileiros com características tão peculiares e culturas tão diversificadas, que vale a pena divulgar. São brasileiros, apesar de muitos não considerá-los como tal, por puro preconceito ou até mesmo por ignorância. Somente os estados de Piauí e Rio Grande do Norte não são habitados por eles.



O grupo indígena brasileiro maxacali está localizado no nordeste do estado de Minas Gerais, entre os municípios de Santa Helena de Minas e Bertópolis. Em 2008, somavam 1460 índios.


Fiquei hospedada em uma cidade bem próxima chamada Machacalis, onde se localiza o pólo base da Fundação Nacional do Índio-FUNASA .Trata-se de uma espécie de Posto de Saúde, onde os indígenas são atendidos.



Fui auxiliar um colega de trabalho que usará os dados coletados em sua dissertação de mestrado. Mas o que eu quero divulgar aqui não é o seu trabalho que por sinal é brilhante.



O que eu quero narrar são algumas curiosidades culturais. Os índios maxacalis possuem a fama de ser uma tribo perigosa, a mais perigosa de Minas. Mas, de fato, pelo que pesquisei, a maior causa de morte entre eles é o assassinato. Mas isto ocorre quando eles estão alcoolizados (apesar de ser proibido vender bebidas alcoólicas existem pessoas que insistem em comercializar) e quando isto acontece dificulta o trabalho de toda a equipe de saúde, pois eles ficam agressivos e não aceitam o atendimento. Mas quero deixar claro que isto não aconteceu com a nossa equipe, pelo contrário, não tivemos dificuldade nenhuma em relacionar com eles, exceto com a língua (muitos não falam português). Mas pelo que eu aprendi é raro eles agredirem os “brancos", exceto em situações extremas.



De tudo que eu presenciei, o que mais me intrigou foram os nomes indígenas. Não deixa de ser um tanto engraçado. Por ser um povo que preserva muito suas culturas originais e com pouco contato com a civilização (apesar de algumas aldeias possuírem luz elétrica, som e televisão), imaginei que encontraria muitos nomes indígenas. Mais eis que quando verifico o censo encontro alguns nomes como:



Agente de saúde Maxacali


Gerente Maxacali


Tê Vassoura Maxacali e seu filho Tê Vassourinha Maxacali


Piscina Maxacali (masculino)


Medo Maxacali


Zé Pirão Maxacali



Além de vários outros nomes comuns como Ana Paula, Vanessa. Dizem que quando eles chegam para registrar, não tem idéia do nome. Assim, quando eles escutam as pessoas conversarem, pedem para colocar o nome ou mesmo uma palavra que escutam. Muitas vezes os nomes são escritos como o dialeto próprio deles e isto é mais um fator que dificulta nosso trabalho. Os índios podem escolher qualquer nome a seus filhos...



E quantos filhos! Nossa! Nunca vi tanto “kitoco” junto. Para cada criança que nasce, o chefe da família ganha em torno de R$800,oo.

Eles vivem da renda que recebem do governo, possuem agricultura familiar e produzem uma mandioca deliciosa e extremamente macia. Além disto, alguns tem vacas e gados. Quando tem alguma comemoração, os bois são sacrificados e distribuídos para toda a aldeia. Durante dois dias seguidos os índios maxacalis ficam cantarolando, assando e comendo carne, até toda a carne ser consumida. Outro fato curioso e que me intrigou foi a música.Ela está presente em cada cantinho deste Brasil. Eles possuem uma banda de forró denominada “Raízes da Terra”. Ah! Como eu queria ter visto eles dançando... Mas não tive este privilégio. A equipe não tinha permissão para entrar na casa deles e quando isso era possível, tinha que ser rapidamente só para fazer alguns registros. Mesmo assim, muitos deles não concordavam.



Os índios vivem todos juntos, três a quatro famílias em uma casa, e algumas eram de palha, outras de barro e em algumas aldeias mais evoluídas eram feitas de tijolos. Nesta última aldeia o chefe da tribo era uma mulher e vereadora, portanto a mais desenvolvida culturalmente.



Durante o trajeto encontramos algumas casas queimadas. Só víamos o esqueleto feito de bambu. Informaram-nos que naquele local houve um óbito de uma criança, e sempre quando morre um membro da família eles queimam a casa e mudam de lugar.

Cada aldeia tinha uma casa denominada “casa de religião” e neste local não é permitido a entrada de mulheres e não podíamos chegar perto.... Ninguém sabe direito o que acontecia lá... Mistérios da cultura indígena....



Tive a oportunidade de conhecer a escola indígena, alguns aprendem a língua portuguesa, mas é opcional e a partir dos 14 anos. O que eu achei bem interessante é que encontrei vários recortes de jornal afixados nas paredes, inclusive uma foto do presidente Lula. Os desenhos muito bem feitos, demonstram beleza e muita habilidade manual.



As condições de higiene são extremamente precárias, por isso a prevalência de enteroparasitoses, consequentemente é grande a desnutrição entre os povos. O que eu pude concluir é que a saúde indígena é ainda um problema muito grande, mas não é só por falta de acesso. É também uma questão cultural. É preciso muita paciência, pois mudar hábitos não é fácil e o mais importante: o profissional tem que gostar do trabalho. Existem muitas aldeias que são bastante afastadas umas das outras, pois as rixas entre eles são freqüentes. Existem algumas aldeias de difícil acesso, muitas vezes é preciso atravessar córregos e rios (não tem transporte, é preciso contato direto com a água). Este fato dificulta o acesso à saúde, pois nem todo profissional quer se submeter a isto. Este fato torna um agravante na medida que algumas aldeias recebem o atendimento e outras não. Assim cria-se guerras internas dificultando todo o trabalho.



Tenho muito a agradecer ao ensino público gratuito pela oportunidade, à Universidade Federal de Ouro Preto, à FUNASA, Fundação Gorceix."



Ana Paula Pereira Castro


Nutricionista


Mestranda em Ciências Biológicas - UFOP

7 comentários:

Maura 5 de agosto de 2009 10:27  

Oiê!
Tô passando pra avisar que seu cantinho será publicado hoje às 11!!!
Bjusss!
Maura

Maura 5 de agosto de 2009 10:30  

Ah! Já respondi os questionários!
E tem um recadinho pra vc no post do dia 03/08 la no Coisas!!!

Débora Castro 5 de agosto de 2009 11:58  

Amei seu depoimento, prima!

Sempre é bom a gente aprender sobre culturas diferentes e, principalmente, dar valor a nossa vida!

Sucesso na sua profissão. Beijos.

Ozenilda Amorim 5 de agosto de 2009 14:32  

Tudo muito diferente, mas criança é criança em qualquer cultura, presta atenção nos sorrisos e no menino segurando o cachorro, me emocionou.
;)

Mônica 6 de agosto de 2009 10:32  

Que beleza de trabalho. Perfeito!
Eu sempre trabalhei sobre o indio com minhas crianças. Comparando e lendo reportagens atuais.
Com carinho Monica

dona perfeitinha 6 de agosto de 2009 23:30  

Adorei sua participação aqui no dona perfeitinha, Ana Paula!

Beijo,
Talita.

júlia 12 de abril de 2010 21:25  

excelente seu pequeno documentario.escrito com muita clareza e objetividade....
muito bom msm!

Obrigada por comentar!

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