"O sotaque das mineiras" por Felipe P. Braga Neto

by - 28.9.09

Essa crônica está no livro 'As coisas simpáticas da vida' - da Editora Landy, São Paulo, SP, de 2005, de Felipe Peixoto Braga Neto. Ele é alagoano, mas mora e ama Belo Horizonte. A crônica que segue refere-se à que deu título a essa postagem. É bem legal.



O sotaque das mineiras deveria ser ilegal, imoral ou engordar...
Afinal, se tudo que é bom tem um desses horríveis efeitos colaterais,
como é que o falar, sensual e lindo das moças de Minas ficou de fora?

Porque, Deus, que sotaque! Mineira devia nascer com tarja preta avisando:
'ouvi-la faz mal à saúde'. Se uma mineira, falando mansinho,  me pedir para assinar um contrato doando tudo que tenho, sou capaz de perguntar: 'só isso?'. Assino, achando que ela me faz um favor.

Eu sou suspeitíssimo. Confesso: esse sotaque me desarma.
Certa vez quase propus casamento a uma menina que me ligou por engano, 

só pelo sotaque.

Os mineiros têm um ódio mortal das palavras completas. Preferem, sabe-se lá por que, abandoná-las no meio do caminho. Não dizem: pode parar, dizem: 'pó parar'. Não dizem: onde eu estou?,  dizem: 'onde queu tô?' Os não-mineiros, ignorantes nas coisas de Minas, supõem, precipitada e levianamente, que os mineiros vivem - lingüisticamente falando - apenas de uais, trens e sôs.

Digo-lhes que não. Mineiro não fala que o sujeito é competente em tal ou qual atividade. Fala que ele é bom de serviço. Pouco importa que seja um juiz, um jogador de futebol ou um ator de filme pornô. Se der no couro - metaforicamente falando, claro - ele é bom de serviço. Faz sentido....

Mineiras não usam o famosíssimo tudo bem. Sempre que duas mineiras se encontram, uma delas há de perguntar pra outra: 'cê tá boa?' Para mim, isso é pleonasmo. Perguntar para uma mineira se ela tá boa é desnecessário...

Há outras. Vamos supor que você esteja tendo um caso com uma mulher casada. Um amigo seu, se for mineiro, vai chegar e dizer: _ Mexe com isso não, sô (leia-se: sai dessa, é fria, etc). O verbo 'mexer', para os mineiros, tem os mais amplos significados.  Quer dizer, por exemplo, trabalhar. Se lhe perguntarem com o que você mexe, não fique ofendido. Querem saber o seu ofício.

Os mineiros também não gostam do verbo conseguir. Aqui ninguém consegue nada. Você não dá conta. Sôcê (se você) acha que não vai chegar a tempo, você liga e diz: 

'- Aqui, não vou dar conta de chegar na hora, não, sô.'

Esse 'aqui' é outra delícia que só tem aqui. É antecedente obrigatório, sob pena de punição pública, de qualquer frase. É mais usada, no entanto,  quando você quer falar e não estão lhe dando muita atenção: é uma forma de dizer 'olá, me escutem, por favor'. É a última instância antes de jogar um pão de queijo na cabeça do interlocutor.

Mineiras não dizem 'apaixonado por'. Dizem, sabe-se lá por que, 'apaixonado com'. Soa engraçado aos ouvidos forasteiros. Ouve-se a toda hora: 'Ah, eu apaixonei com ele...' Ou: 'sou doida com ele' (ele, no caso, pode ser você, um carro, um cachorro)...

Eu preciso avisar à língua portuguesa que gosto muito dela, mas prefiro, com todo respeito, a mineira. Nada pessoal. Aqui certas regras não entram. 

São barradas pelas 20 montanhas.

Por exemplo: em Minas, se você quiser falar que precisa ir a um lugar, vai dizer: 

- 'Eu preciso de ir..' Onde os mineiros arrumaram esse 'de', aí no meio, é uma boa pergunta...  Só não me perguntem! Mas que ele existe, existe. Asseguro que sim, com escritura lavrada em cartório.

No supermercado, o mineiro não faz muitas compras, ele compra um tanto de coisa... O supermercado não estará lotado, ele terá um tanto de gente. 

Se a fila do caixa não anda, é porque está agarrando lá na frente.
Entendeu? Agarrar é agarrar, ora!

Se, saindo do supermercado, a mineirinha vir um mendigo e ficar com pena,
suspirará: '- Ai, gente, que dó.'

É provável que a essa altura o leitor já esteja apaixonado pelas mineiras... 

Não vem caçar confusão pro meu lado! Porque, devo dizer, mineiro não arruma briga, mineiro 'caça confusão'. Se você quiser dizer que tal sujeito é arruaceiro, é melhor falar, para se fazer entendido, que ele 'vive caçando confusão'.

Ah, e tem o 'Capaz...' Se você propõe algo a uma mineira, ela diz: 'capaz' !!! 

Vocês já ouviram esse 'capaz'? É lindo. Quer dizer o quê? 
Sei lá, quer dizer 'cê acha que eu faço isso'!? com algumas toneladas de ironia. Se você ameaçar casar com a Gisele Bundchen, ela dirá: 'ô dó dôcê'. Entendeu? Não? Deixa para lá.

É parecido com o 'nem...' . Já ouviu o 'nem...'? Completo ele fica: '- Ah, nem....'    O que significa? Significa, amigo leitor, que a mineira que o pronunciou não fará o que você propôs de jeito nenhum. Mas de jeito nenhum. Você diz: 'Meu amor, cê anima de comer um tropeiro no Mineirão?'. Resposta: 'nem....' Ainda não entendeu? Uai, nem é nem. Leitor, você é meio burrinho ou é impressão?

Preciso confessar algo: minha inclinação é para perdoar, com louvor, os deslizes vocabulares das mineiras. Aliás, deslizes nada. Só porque aqui a língua é outra,
não quer dizer que a oficial esteja com a razão.

Se você, em conversa, falar: 'Ah, fui lá comprar umas coisas....' ' _Que' s coisa?' - ela retrucará... O plural dá um pulo. Sai das coisas e vai para o 'que'!

Ouvi de uma menina culta um 'pelas metade', no lugar de 'pela metade'.
E se você acusar injustamente uma mineira, ela, chorosa, confidenciará: - Ele pôs a culpa 'ni mim'.

A conjugação dos verbos tem lá seus mistérios, em Minas... Ontem, uma senhora docemente me consolou: 'preocupa não, bobo!'.
E meus ouvidos, já acostumados às ingênuas conjugações mineiras
nem se espantam. Talvez se espantassem se ouvissem um: 'não se preocupe', ou algo assim. F órmula mineira é sintética e diz tudo.

Até o tchau, em Minas, é personalizado. Ninguém diz tchau, pura e simplesmente. Aqui se diz: 'tchau pro cê', 'tchau pro cês'. É útil deixar claro o destinatário do tchau....




E eu como boa mineira, posso confirmar tudo isso aí acima. Pra falar somos bem assim mesmo. Mineira que é mineira tem sotaque e manias e essas não param por aí não.
Eu, por exemplo, em dias de falar com preguiça, 'engulo' tudo quanto é letrinha. Tipo: Vamo andano? Não que eu me orgulhe disso... Fica brejeiro demais, mas vem de dentro, é da gente. E por aqui todos perdoam e fica-se muito mimado. Fazer o quê, né? Até mais tarde procês. Mas enquanto isso, que tal contribuir com mais manias de fala das mineiras e dos mineiros?



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15 comentários

  1. Minha irmã é de SP assim como eu. Ela mora em Pouso Alegre (sul de MG) há uns 12 anos e ela tem esse sotaque. Rsrsrs...como pega,né? Bjs

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  2. Ai, me vi aí...rs

    Eu sou nascida e criada (rs) em Ribeirão Preto/SP, mas meus pais e toda família (de todos os lados) são do sul de minas, então aprendi a falar assim.
    Todo lugar que eu vá, me perguntam, vc é mineira? Não adianta...
    Já ouvi um ditado que diz que "gato que nasce em forno não é biscoto"...rs
    Então sou mineira mêss, uai...rs

    Ah. tem outra coisa que a gente fala muito... por ex, se alguém me perguntar hoje... Kelly, vamos fazer uma caminhada? respondo: "têm perigo não!" kkk

    bjo procê

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  3. Ah, mas tem que se orgulhar sim! Não é uma questão de falarmos errado; é só um 'jeitim' de falar. Sou mineira, 'como' os finais das palavras (falando, obviamente) com muito orgulho! Mas eu escrevo certinho, viu?!

    Abraços, já conhecia este texto e adorei vê-lo aqui!

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  4. Tenho impressão de ja tê-lo lido, mas é uma delícia assim mesmo! Só mesmo depois de ter me mudado pra Petrópolis é que percebi o quanto falo diferente e perceber claramente o sotaque bem puxado de todos os mineiros que andam por aqui fazendo visitas.
    É lindo mesmo nosso sotaque!

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  5. Sou mineira, de Belo Horizonte e me orgulho disso...uai...rsrsrrsrsrs
    Passe lá no meu blog e deixe um comentário sobre o site que eu estou indicando e me ajude....por favor...
    Beijo amiga:)

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  6. kkkkkk.Me matando de rir aqui!! Sou filha de mineiro, criando no sul de Minas....Caro que carrego um leve sotaque, vindo de minha cidade Espírito Santo do Pinhal, q tem um pézim em Minas!!!Tenho um fato q qdo conto todos riem mto!!! Em uma vaigem a Outro Preto, o garçon do hotel mto prestativo, nos dando dicas dos locais e contando os ''causos'', desnecessário dizer q nosso café da manhã durou horas, com aquele sotaque, fala mansa !!kkkk Saímos, marido e eu, passeamos.Hora do almoço, por coincidência, o restaurante era mto próximo do hotel, enquanto amrido tomava uma cervejinha pra abrir o apetite, fui ao hotel pegar um filme novo pra máquina.rrr..Na saída, já com filme na bolsa, quem esta na porta do hotel?? O garçon!!! Ai jisuis!!! Ele pergunta see fomos nos locais.....etc, etc.............e amsi uma evz aquela fala mansa, o sotaque, falou do p~çaozim de quejo, do arrozin, e eu esuqeci marido no restaurante!!!kkkkkkkk A casa caiu!!!kkkk Qdo olho pro lado marido vem bufandoooooo.......agora, qdo ouço um mineirim falanu, já fico esperta ki só!!!
    mas valeu, e amo este sotaque!!
    bjins Talita

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  7. Também sou mineira de BH.Adoro esse texto. Não tem coisa melhor que conversa de mineiro, sem pressa de acabar e contando todos os detalhes...E no mineirês então? Só nós entendemos, por exemplo...
    Quando saimos com uma turma sem saber pra onde ir, falamos:
    _ Prõnóstamuínu? ( pra onde nós estamos indo? )...simples assim.
    Bjos

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  8. Que delícia este post! Também sou mineira, mas moro em Floripa há uns cinco anos. Quando cheguei aqui, meu sotaque fazia o maior sucesso. Todo mundo acha super bonitinho mesmo. Com o tempo vamo perdendo um pouco, mas nada como uma ida em BH. Uma recarregada no mineirês.
    Adorei seu blog! Também tenho um... Dá uma passadinha lá! Beijos

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  9. Adorei!!! Capaz que não falo assim... só não dá para escrever, porque fica estranho para quem lê, mas com 1 minuto de conversa já se percebe que sou mineiríssima.
    Eu uso o tem base não direto hahahah.
    Bjo amiga mineirinha.

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  10. Sou mineira de BH e morando há três anos em Balneário Camboriú/SC.No início, quando eu e meu marido íamos a algum lugar, bastava abrirmos a boca para nos perguntarem se éramos mineiros. Até aí tudo bem, apesar de não entender como que eles percebiam logo de cara. Comecei a trabalhar em uma empresa onde tem gente de tudo quanto é lado e de mineiros, só eu e mais um. No início, bastava eu falar: "-Belez?", que na hora me perguntavem se era mineira. Com a saudade de Minas apertando, comecei a sentir um orgulho imenso do meu Estado e principalmente do meu sotaque. Quando me interrogam sobre queijos, comidas mineiras, adoro! Dia desses me pediram pra falar: "Graças a Deus! Ninguém se machucou". Falei normalmente e bastou para todos caírem na gargalhada. Aqui, eles adoram meu sotaque. Principalmente os meus "trem", como se não fosse óbvio eu pedir que peguem esse ou aquele "trem" pra mim"! Ou contar que caiu um "trem" no meu olho que tá me incomodando! Dia desses, até uma amiga catarinense soltou um "trem" bem ao nosso modo. Eu entendi na hora, os outros não sei.
    Com o coração cada vez mais apertado de saudade de Minas e principalmente DO POVO MINEIRO, hoje adoro e morro de orgulho quando passo e falam: " - Ô mineirinha!"... ADORUUUU!!
    Adoro esse texto. A saudade é tanta que toda vez que o leio me emociono. Tanto que o tenho arquivado em minha caixa de mensagens.
    Saudad demais da conta d'ocês aí.
    Abraços

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  11. Oi, gente!

    Amei cada caso e cada palavrinha de vocês. Obrigada, mesmo.

    Como é bom ser mineira, né?

    E como disse a Evelise, temos que ser muito orgulhosas mesmo do nosso sotaque 'único'. Mas também adoro ouvir sotaques diferentes. O Brasil é muito rico e tem sotaques lindos!

    Beijos,
    Talita.

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  12. Aline Reis ( aline@josedossantos.com.br)2 de outubro de 2009 14:39

    Moro em Ubá-MG há 12 anos..Vim la do RJ. Chegue aki carregada do X, que é bem expressivo pelos cariocas..e como mineiro é desconfiado, tive que aderir bem depressinha às palavras ditas "pelas metade", e pronunciadas de mansinhoo..
    Lugar Bom de viver é aki...Amo Minas Gerais..
    Ja dizia alguém que não sei quem:
    ò Minas Gerais, quem te conhece não esquece jamais "

    Bjão pro cê.

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  13. Gente, que sotaque lindo!! Sou de Pernambuco, e falo bem arrastado, e achei algumas coisas ate parecida no jeito de falar de vocês, tipo, aqui a gente também fala esse "capaz" só que de com uma palavrinha na frente - Bem capaz! ( bem capaz deu ir) haha Adorei o texto.

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"As redes de pescar palavras são feitas de palavras." Otávio Paz.