Tanto vemos, tanto lemos, tanto conversamos e tanto escrevemos sobre as diferenças entre nós mulheres de hoje e nossas mães, avós, bisavós etc. Sabemos da importância da ciência e da tecnologia na história de conquistas das mulheres na sociedade, mas sentimos isso? Nós mulheres de hoje, sentimos as mudanças e a pressão delas em nossos ombros? E respeitamos aquelas que não se encaixam no perfil de modelo da mulher moderna?
Lembro-me de que minha avó ganhou sua máquina de lavar dos filhos já crescidos. E isso foi há muito pouco tempo atrás... menos de 20 anos atrás. Presenciei a revolução que isso causou na vida da minha avó, já com 7 netos àquela época. Íamos sempre nos finais de semana para sua casa e em alguns sábados, além das atividades de cozinhar, lavar, arrumar a casa, minha avó "tirava" o dia para lavar roupa! Já ouviu falar disso? Ela "tirava" o dia. Já tinha um tanquinho antes da máquina, mas passava o dia lá na área dela, torcendo, pendurando, esfregando, escovando roupas, toalhas, sapatos, tudo. Quando ganhou sua máquina de lavar, sobrou tempo pra brincar com os netos, pra tirar cochilos em frente à TV, enfim... ficou com tempo livre de obrigações. Que eu saiba, minha avó nunca trabalhou fora e, na época em que ela teve filhos, a média de filhos por mulher no Brasil era de 6,7... isso foi em 1960. Minha avó teve 6 filhos. Quando minha mãe teve filhos, na década de 80, essa média já era bem menor. Mas minha mãe trabalhava o dia inteiro fora de casa. E eu e meu irmão fomos muito cedo pra escola. E ficávamos com a babá o resto do dia. Não tenho lembranças de rotina com meus pais. Só quando em viagens ou nos finais de semana na casa dos meus avós. Hoje, tenho uma filha e quero ter mais filhos, mas sabem qual é a média de filhos por mulher no Brasil neste ano de 2010? É 1,7. Isso é reflexo de muita coisa: casamentos relâmpagos, casamentos mais tardios, mulheres com trabalhos e salários equiparados com os dos homens, entre outras coisas, já que as vontades, os sonhos e os planos, principalmente das mulheres mudaram muito ao longo da história.
Sabe por que penso muito sobre esse assunto? Porque embora eu viva nesse momento da história, que goste desse reconhecimento conquistado, hoje sofro um pouquinho com preconceitos. Preconceitos retrógrados por não trabalhar fora, por não ter babá, por querer tirar as manchas das roupas eu mesma e não deixar pra funcionária, por não ir ao salão de beleza rotineiramente, por não querer colocar minha filha na escola tão cedo, por ir brincar com minha filha na pracinha todas as manhãs. Isso, dizem, não é coisa de mulher dos dias de hoje. E talvez não seja mesmo, tanto que na pracinha, por exemplo, só há crianças e babás. Filhos de outras mães com mães de outros filhos, ou seja, enquanto as mães das crianças da pracinha trabalham, as babás trabalham cuidando dos filhos delas, enquanto seus próprios filhos estão em casa também com outra mulher. Praticamente todas as mulheres de hoje trabalham fora ou mesmo que não trabalhem, tem babás para cuidar de seus filhos.
O perfil da mulher moderna tão almejado hoje é estudar o máximo que puder, conciliando trabalho pra crescer rápido na carreira, ter um ótimo salário e enfim, casar-se, mesmo que seja um tipo de casamento descartável, afinal, sonho de casamento até a mulher moderna tem. Mas como os costumes e as vontades são bem diferentes, casamento já não é mais uma coisa vista por todas como 'pra vida toda', ou como prioridade, como antigamente. Ser mãe então, já não é sonho pra muitas mulheres, mas o engraçado é que os homens continuam querendo ser pais quase como regra. Eu acho lindo o perfil independente da mulher moderna, mulher segura, determinada, e acho fascinante a ideia de seguir carreira de sucesso, mas no meu caso, e a gente tem que entender o que nos faz mais feliz, priorizo outros sonhos e não ligo muito de destoar da maioria das minhas amigas.
Na pracinha, onde vou todos os dias com Sofia, nunca encontrei nenhuma das mães das crianças com quem brincamos por lá. Sei seus nomes, profissões e até mais do que eu gostaria, já que ouço as babás contarem. Mas nem aos sábados ou domingos há mães por lá. São sempre só babás. E eu... a única mãe. Dá pra escrever um livro só com os casos que ouvi e presenciei nesses 4 meses em que frequentamos a mesma pracinha. E tem casos bons e casos ruins. Mas os ruins são sempre uma dor pro meu coração de mãe que tem conhecido o outro lado da moedinha de se ter uma babá. Me perguntam porque estudei tanto, faculdade, MBA, pós... se não quero trabalhar fora. Não querer trabalhar fora não quer dizer que não gosto de trabalhar ou que não trabalho. Eu gosto e trabalho. E nesse ponto sou mulher moderna mesmo. Gosto de me sentir aprendendo e produzindo. E tenho muita coisa pra trilhar ainda, mas de uma forma um pouquinho diferente das das minhas amigas que tanto admiro pela força e pela rotina de trabalho longe da família. Admiro porque elas não sofrem. Eu sofreria. Os trabalhos que me realizam nunca serão tão brilhantes, mas afinal, o que importa na vida? Ter que pagar as contas, com certeza, mas acho que vai um pouquinho além disso pra mim e não me importo nem um pouquinho de me parecer mais com a geração da minha avó do que com a minha. Porque é assim que vivo mais feliz.

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