Tem casa que vive, tem casa que não, já reparou?
Tem casa que você entra e é como museu. Tudo no seu lugar, tudo lindo,
perfeito! E a tendência é todo mundo querer que sua casa seja assim, mas... no
fundo, no fundo, essa casa é um pouco triste. Por solidão, talvez? O que se faz
ali?
Gosto mais de casas vivas. Acho-as mais alegres.
Mas por viva não entenda bagunçada, nada disso. É que toda casa viva, ao olhar
pra ela enxergamos atividades e isso é bonito. A criança que brinca e tem
brinquedos espalhados naquele momento. A cozinha funcional que tem farinha na
bancada, pratos no escorredor, copos a serem lavados ainda sobre a mesa
demonstrando recente atividade e com certeza atividades ainda por vir como
limpar as bancadas, lavar os copos e, claro, cozinha assim, demonstra que o
fogão é bem utilizado ou, mesmo que não se cozinhe, que se faz coisas na
cozinha, que há refeições ali, sugerindo bons momentos em torno da mesa. Gosto
da brincadeira de olhar por trás das aparências, descobrir a 'essência' de uma
casa, pois todas querem viver, querem sofrer, sorrir, se reerguer. Todas têm
alguma história, mesmo que só retratem o passado, como um museu. Todas têm seus
segredos.
Em casa museu, as aparências dizem que tudo
funciona, mas como não se usa, o eventual uso estraga ou descobre-se estragado
há tempos. Mal humor decorre com isso, acho. Em casa viva, as coisas estragam e
se consertam com mais frequência. Não há mal humor se o liquidificador parou de
funcionar, afinal... 'ele já fez tanto!'. E logo se leva o 'doente' ao Senhor
da esquina que o conserta no mesmo dia, com a recomendação: 'Ele já tá
velhinho. Deixa-o só de auxiliar, pro simples, que assim não vai dar mais
problema'. As coisas funcionam, as coisas dão resultados, as coisas vivem e se
comunicam. Em casa museu não há comunicação... é capaz do acendedor do fogão já
não funcionar há tempos e ninguém atinar para aquilo ou lhe dar atenção. Que
dó. Casa linda, bem decorada, boa de se olhar, mas pouco boa pra viver, afinal,
não pode isso, não pode aquilo. Se assenta na cama arrumada leva pito, se se
quer cozinhar algo diferente, outra negativa: 'não faz... se não vai sujar
tudo'.
Minha casa é viva, mas confesso que várias vezes
já fui chata e podei atividades simplesmente porque ia sujar ou ia dar trabalho.
Mas casa viva, boa de viver dá trabalho. Você talvez saiba melhor do que eu
como dá trabalho, não é? Mas casa nossa é boa por isso. É boa porque tem a cara
das atividades da família. É boa porque nos acolhe e nos diz sim a qualquer
coisa que nos der na telha fazer.
Por que sentimos tanta saudade de casa quando nos
afastamos por muito tempo? Porque nossa casa é viva e nos acompanha na leitura,
no brigadeiro de colher, na preguiça com cama desfeita dia inteiro no domingo,
no banho demorado, na reunião de amigos, nas brincadeiras de pular no sofá com
o filho. Ah... como eu amo minha casa, com minha cara e da minha família. Por
mais que as atividades de limpar, lavar, secar sejam assim pesadas, não há
preço pra alegria de se ter uma casa viva.
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