Uma garagem me diz... - CRÔNICA

18.12.13 dona perfeitinha 1 Comentários

A garagem que era parte da minha rotina, por que passei várias vezes ao dia, fosse noite ou fosse dia. A garagem em que cresci. Aniversariei. Ri e sofri. Sofri. 

Congelei cenas. Cenas de um passado querido. Cenas tristes. Cenas neutras. Cenas tristes ficam, as neutras somem. Não é legal, mas é o que acontece. Quando a gente já é adulto e já conta 3 ou mais décadas, o passado fica mais presente. Presente de uma forma reflexiva. É preciso. Ninguém vive só do hoje. Para pensar no amanhã, o ontem, muitas vezes, é muito necessário. Cenas alegres também existiram, como a de um aniversário. O único aniversário infantil que tive na casa, mas isso é o que acho. Talvez o aniversário nem fosse meu, talvez fosse do meu irmão, mas carrego cenas felizes do dia em que corria com amigos por ela, por seus pisos que já tinham certas rachaduras esquisitas. Tinha pipoca, tinha doces e foi divertido!

Acontece que também foi na garagem em que recebi críticas ferrenhas. Foi ali que me disseram que não termino nada que começo. O fato é que no dia anunciei que deixaria de ter aulas de violão. Não era boa com músicas. Até  hoje não sou. Sofri comparações, bem ali naquela garagem. E fui lembrada de outra cena de menos de um ano antes: foi ali naquele mesmo lugar que fui presenteada com o único presente surpresa de que me lembro, sem data especial, que já tinha ganhado: sim, exatamente um violão! Ô garagem boa pra saber das histórias. Foi nela que fui obrigada a emprestar minha bicicleta de manhã e à noite ouvir que foi roubada, em meio a risos da outra parte, como se fosse uma punição apropriada. Nunca fui compensada. Nunca mais tive uma bicicleta, não no mesmo país em que morava. Foi também nessa garagem que não vou esquecer a cena, vi meu pai sair do carro e pedir minha ajuda. Um tapete e uma cadeira. Prontifiquei-me e às minhas perguntas aflitivas, tive respostas quando ele já conseguia se arrastar empurrando a cadeira sobre o tapete. Chegou à cozinha. Ele tinha caído do cavalo. Passou dias difíceis, mas melhorou rápido. Talvez tenha se esquecido daquilo antes mesmo de mim. Os sentimentos aflitivos da minha impotência em ajudar voltam forte junto à lembrança.

E nessa garagem aconteceram tantas coisas mais, mas nada tão triste quanto a cena de uma filha anunciando à neta o diagnóstico de sua mãe, avó dela. Um diagnóstico carregado de desesperança, um anúncio de um ano difícil. E a garagem que o comprove, um entra e sai da família inteira. Outro diagnóstico também ali se impôs. Dessa vez de um avô. E as perdas, os abraços, as lágrimas e as conformidades. Tudo muito ali ou por ali. Naquela garagem.


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Um comentário :

  1. Que bacana a sua crônica Talita! Lembranças de infância são sempre eternas!Um beijo para você e sua família. Ana Paula Castro

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