'AMOSTRA' do meu primeiro romance

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Como sabem, sou escritora independente e tenho alguns livros em eBook, à venda pela Amazon.com.br (CLIQUE AQUI para conhecer todos eles!)


Venho apresentar pra vocês, o meu primeiro romance lançado nesse mês!



Esse é um romance filosófico que tem agradado aos leitores de hábitos mais exigentes. Trata-se da história de Anastásia que passa por um processo de fortalecimento de sua autoestima depois de se ver longe dos seus pais, dos quais carrega grandes mágoas. Mas a perda do seu marido a põe de frente para seu passado e ela terá de encarar novamente aqueles que nunca souberam lhe dar o afeto de que todo filho precisa. Lidar com a dor da perda do seu marido Kim será apenas um dos grandes processos de aprendizagem por que Anastásia passará, aprofundando-se em buscas sobre si mesma. Essa é uma história que te prenderá do início ao fim da leitura, com acontecimentos divertidos, estressantes, emocionantes e surpreendentes. Anastásia ainda não acredita que poderá amar de novo, mas a vida lhe mostrará que há coisas contra as quais não podemos lutar!

Leia a sinopse completa do livro na página dele da Amazon (CLICA AQUI)


COMO COMPRAR E COMO LER

É fato que no Brasil, poucas pessoas já aderiram à leitura de livros virtuais, ou seja, eBooks. Mas já há um mercado de leitores cativos (eu adoro!). Podemos ler eBooks pelos aparelhos de leitura como o Kindle (meu preferido é a versão PaperWhite porque possui mimos como dicionário para cada palavrinha dos livros que lemos). Mas também podemos lê-los pelo Aplicativo (APP) de leitura Kindle que baixamos gratuitamente, direto do site da Amazon - e pode ser baixado no celular, tablet ou computador (ou em todos eles!). Baixe onde você preferirá ler os livros em eBook, como o meu romance 'Depois que você se foi'. Depois de baixar e fazer seu login igual ao que criou para sua conta no site da Amazon, todos os livros que comprar estarão disponíveis dentro desse APP. 
E-Books são mais baratos (o meu custa apenas R$9,99) e você vai se surpreender como a leitura corre rápido, rs. Todos nós que passamos a ler eBooks, dizemos isso em comum: passamos a ler muito mais!


COMO COMPRAR - QUEM NÃO TEM O KINDLE!

1 - Para baixar o livro no site da Amazon, você deve acessar o site: Clica aqui.
Cadastre-se com e-mail e senha, indo ao canto superior direito da página e clicando em 'Olá! Faça seu login' e, em seguida em 'Cliente novo? Comece aqui', seguindo as demais orientações e salvando sua forma de pagamento (obrigatório para conseguir realizar a compra).
2 - Depois do cadastro, faça seu login no site.
3 - Clique sobre o eBook que você quer comprar. No caso, clique aqui para comprar o Depois que você se foi.
4 - Procure, embaixo da capa do livro, um quadrante onde se lê 'LEIA EM QUALQUER DISPOSITIVO' (ou seja, no celular, tablet ou computador) e clique nele. Você escolherá o sistema em que está baixando o APP de leitura do eBook (windows, android, apple, etc) e insira ali seu e-mail. A Amazon lhe enviará um link pelo e-mail onde você vai clicar e o APP será instalado automaticamente.
5 - Agora é hora de comprar o eBook. Entre no seu APP de leitura, faça seu login, acesse a loja da Amazon (clique onde está o símbolo da Amazon que é um 'a' com uma seta embaixo), busque por 'Talita Cavalcante' ou pelo nome do livro, clique sobre o livro que quer comprar e, na página dele, clique em 'COMPRAR COM UM CLIQUE' ou 'FAZER DOWNLOAD' ou em'COMPRAR' simplesmente. O livro aparecerá no seu aplicativo de leitura em poucos segundos.

Eu te agradeço, de coração, pela confiança no meu trabalho. Acho que vai gostar da leitura e, se o fizer, deixe seu comentário sobre o livro no site da Amazon e recomende a seus amigos. Esse trabalho tem grande qualidade literária e poderá ser boa companhia pra muitos leitores que se interessam por ficar com algo da história para si mesmos, crescendo um pouco junto à jornada da personagem. Conseguir leitores não é uma tarefa fácil nos dias de hoje. Terei maior orgulho em saber sobre você!


UMA AMOSTRA DO ROMANCE PRA VOCÊ!
(Se gostar, não deixe de me prestigiar, tornando-se meu leitor. O eBook está à venda AQUI)


CAPÍTULO 1

Quantas vezes você abriu um livro em busca de respostas? Várias? Poucas? Livros normalmente são bastante leais comigo. Sempre me dão algo em que refletir exatamente na questão que me preocupa. Tenho meus preferidos, claro, mas dou muita sorte quando resolvo arriscar um livro novo. Sempre que abro um volume, numa página qualquer, recebo de presente algo que me faz crescer, que me ajuda de verdade.
Nesse momento, porém, parece que nenhum livro pode me ajudar. Recebo a notícia de que meu marido, Kim, acaba de ser considerado morto. As buscas pelo corpo dele estão definitivamente encerradas. Os pais dele vieram me contar e estão assentados à minha frente agora. Percebo que a dor deles é imensamente maior que a minha. Por mais que ame meu marido, a dor que vejo no olhar deles é uma dor que quase dá pra tocar, que quase deixa a minha dor, a maior que já senti, com vergonha de existir. Essas duas pessoas que me fazem companhia serão sempre muito importantes na minha vida. São quem me abriu os braços nesse país que não foi onde nasci, mas onde já moro há quase seis anos, cinco dos quais casada com o filho deles. Filho esse que, aventureiro, me apresentou um mundo de adrenalina, o mesmo mundo que passei a odiar cerca de um mês atrás quando veio a notícia da avalanche de neve no local onde Kim havia ido escalar com dois dos nossos melhores amigos. Todos eles foram atingidos. Ainda não consigo acreditar que as operações de resgate foram finalizadas sem que encontrassem o Kim e nossos amigos Ari e Fhilip. Meu sogro aponta com tristeza para o jornal que anuncia em manchete: “3 amigos considerados mortos na última avalanche de neve do pico Tasman”. A Nova Zelândia, onde moro, é um país onde impera a paz, onde assassinatos são raros, mas onde acontecem muitos desastres naturais. O Kim costumava fazer um minuto de silêncio para cada notícia de desaparecido, principalmente quando se tratava de uma avalanche de neve. Visto de agora parece até que ele sabia do seu destino. Eu e Kim não temos filhos. Somos muito novos, acabamos de nos formar na faculdade. O Kim queria que engravidássemos no ano que vem, porém eu não dividia essa empolgação com ele. Conheço poucos pais verdadeiramente bons em ser pais. Meus sogros, felizmente, fazem parte dessa pequena lista. E agora perderam um dos dois filhos, que mundo injusto! Coitado do Kim! Começo a chorar compulsivamente, minha sogra vem me amparar. Percebo que ela não pode dizer nada para não se entregar ao choro também. Vou dormir cedo nesse dia, não há mais nada a se fazer.

Em frente ao caixão enfeitado e vazio, colocado ao lado de outros dois na mesma condição, fazemos, todos de mãos dadas, uma mesma prece. Não dividimos a mesma religião, mas dividimos a mesma dor. A irmã do Ari, um dos nossos amigos desaparecidos na mesma avalanche, diz palavras de amor e carinho, algumas na língua maori que ela traduz dizendo que a vida de Ari foi mesmo cheia de luz, muito clara, como seu nome. E que seus amigos que partiram junto com ele eram muito queridos. Todos eles tinham um ‘Mana’, seus valores morais, grandioso. E que as vidas deles darão lugar a outras tão especiais quanto.
Tudo que aprendi sobre os Maoris, nativos da Nova Zelândia, vem da família do Ari. E há muita beleza nos cânticos e ensinamentos deles. Tento dar crédito às palavras de Marama, irmã do Ari, mas ainda estou tão assustada e meu corpo está tão fraco que não consigo segurar as lágrimas enquanto Marama cumprimenta a todos com o toque de nariz e testa, ao qual já me acostumei, mas que nesse momento parece insuficiente. Ela então me abraça quando chega a minha vez, quase que adivinhando que eu precisava de um cumprimento mais caloroso. Acabamos todos, os parentes mais próximos do Kim, do Ari e do Fhilip, abraçados. Os pais do Ari começam a cantar na língua maori e assim se encerra nosso funeral. Não consigo parar de pensar no quão jovem eram esses três e na injustiça divina. Será que Deus realmente tem culpa, afinal? Será que é mesmo Deus quem dita as regras? Deus existe? Somos quase nada nesse imenso universo e sequer temos o corpo do Kim para cremar como era de sua vontade. A dor cresce, as lágrimas aumentam, me impedindo de dizer qualquer palavra que seja; mas também não conseguiria, pareço vazia, parece que tiraram de mim a única vontade de acordar amanhã.

E os dias correm e eu continuo sem motivos pra querer abrir os olhos, mesmo que minhas noites tenham se tornado de pura insônia. Mas hoje tenho que me arrastar da cama pra atender ao telefone que toca insistente há mais de 10 minutos. Atendo em inglês, recebo do outro lado um 'oi, filha' em português. São 9 horas da manhã em Wellington, portanto é meia noite no Brasil. Minha mãe parece cansada. Não gosto muito de suas ligações. Por alguns segundos, esqueço-me da minha condição de viúva e viro pro lado do meu marido na cama com uma careta que me é de costume quando a ligação anual acontece. Logo a realidade desaba sobre mim e escuto minha mãe perguntar pelo Kim. Ainda não contei pros meus pais, apesar da notícia do fim das buscas já ter chegado há mais de uma semana agora e o velório sem corpo presente ter acontecido três dias antes. Eu e Kim não éramos casados de verdade e nosso 'casamento' foi motivado primeiro, logicamente, pela paixão adolescente que nos aproximou quando éramos colegas de escola, aqui mesmo em Wellington. Cursamos algumas matérias juntos no último ano do High School (3º ano do ensino médio no Brasil) quando, na época, eu era apenas uma intercambista. Mas a decisão de morar junto veio mesmo depois do momento conturbado que vivi ao voltar pra casa depois de um ano de intercâmbio na Nova Zelândia. É um pouco complicado, mas pouca coisa na minha vida não foi complicada. Meus pais me mandaram pra fora do Brasil para terminar um namoro meu com o qual eles não concordavam. Aos 16 anos, namorei o filho do caseiro da fazenda deles, o Jasper, um rapaz educado e inteligente, apesar das insinuações contrárias que meu pai fazia sobre ele. Quando eu soube que meu namoro com o Jasper chegara ao conhecimento dos meus pais, pedi a eles que não demitissem os pais do meu namorado, ao que meu pai disse que seria idiotice dele fazer isso, já que nunca tinham tido caseiros tão bons de serviço. Os pais do menino continuaram caseiros da fazenda do meu pai, mas eu vim parar, com 17 anos, na Nova Zelândia, onde, por sorte, fiquei hospedada na casa de uma família incrível que depositou em mim amor de pais de verdade, atenção que nunca tinha tido. Eu não podia me sentir mais feliz afinal. Foi pisar na Nova Zelândia que já nem me lembrava mais do meu ex-namorado e sentia-me feliz por estar longe das caras insatisfeitas dos meus pais com tudo que eu fazia. Tive um ano intenso, cheio de novidades (incluindo meu namoro com o Kim). Fui muito bem nas matérias que escolhi cursar. Fiquei entusiasmada em precisar cursar apenas seis matérias durante todo o ano, tendo que escolher obrigatoriamente o inglês; uma matéria da área de biológicas que acabou sendo a biologia; história ou geografia das que escolhi geografia; e uma matemática – que caí na besteira de escolher estatística, mas que valeu demais para mais tarde quando iniciei o curso de Administração aqui na Nova Zelândia no ano seguinte quando voltei a morar aqui depois de brigar sério com meus pais no Brasil ao voltar do intercâmbio. As demais matérias que cursei, escolhi com base na diversão que poderia ter: artes e outdoor education. Essa última até poderia ser uma versão da nossa educação física, mas na verdade trata-se de algo muito mais empolgante, com prática de snow board, rafting, trakking, escalada em rochas e escalada na neve, minhas maiores aventuras de toda minha estada naquele ano na Nova Zelândia. E foi justamente na minha primeira aula de outdoor education que conheci o Kim por quem me apaixonei quase imediatamente. Namoramos durante todo o ano e quando a data do meu retorno ao Brasil se aproximava, trocamos juras de amor e nos despedimos em meio a muitas lágrimas.

De volta ao Brasil, muitas lágrimas também correram. É fato que eu estava com saudades dos meus pais, dos meus amigos, tios, primos, da minha única avó viva por quem tenho um amor imenso, mas minha volta foi marcada por cobranças e mais cobranças por parte dos meus pais. E eu já não era a garotinha passiva de antes. Lá fora encontrei quem se importasse em me perguntar o que gosto, o que prefiro, como eu faria isso ou aquilo. E eu passei a descobrir mais sobre mim mesma. E fui percebendo que a família da gente, a gente não escolhe, mas que podemos escolher todo o resto, que eu poderia falar por mim mesma e que meus pais não tinham o direito de ditarem regras sobre mim, sem me ouvirem, de me mandarem fazer a faculdade que eles queriam que eu fizesse ou de imporem onde eu iria morar como fizeram ao me mandarem em intercâmbio para a Nova Zelândia. Quando voltei pra casa, em Ipatinga, Minas Gerais, depois do meu intercâmbio na Nova Zelândia, eu já estava com 18 anos e, mesmo assim, meu pai me ‘informou’ que eu prestaria vestibular para contabilidade dentro de duas semanas em Belo Horizonte, capital do Estado. Nunca antes tivemos qualquer conversa sobre o que eu gostaria de cursar na faculdade ou onde eu queria cursar. Questionei tal imposição imediatamente, dizendo que eu gostaria de fazer cursinho para prestar vestibular no meio do próximo ano para administração ou direito. Eu ainda não estava preparada para as provas, não tinha ideia do conteúdo do vestibular e tinha dúvidas sobre o curso que queria. Meu pai, assustado com minha reação, achou o maior desrespeito eu questioná-lo. Disse que eu deixasse de bobagens, pois eu sempre havia dito que faria contabilidade para trabalhar no departamento financeiro da empresa dele. Mas eu nunca tinha dito isso! Eu apenas concordava com os planos dele para mim sem questionar. Naquele momento eu já pensava diferente, eu já queria ter voz própria, escolher por mim mesma o que dissesse respeito ao meu futuro, principalmente. Começamos a brigar em todos os momentos e a evitar uns aos outros. Eu tentava me impor e meus pais me jogavam na cara que eles me sustentavam e eram eles quem tinham pago a viagem ‘que eu tanto queria’ para a Nova Zelândia (e sempre citavam o valor em dólares!). Até hoje fico abismada com as afirmações que eles fazem sobre mim. Aposto com qualquer um que se perguntassem pros meus pais qual a minha cor favorita ou qual chocolate ou sabor de sorvete que gosto mais, eles responderiam algo completamente diferente do que realmente gosto e ainda teimariam. Eu já não era a garotinha que sempre abaixava a cabeça pra eles; queria mais pra mim, queria ser livre nas minhas escolhas, dona do meu destino. Não aguentei lidar com as brigas, não havia como. Parecia que eles me expulsariam de casa caso eu não concordasse com o que eles já tinham planejado a meu respeito. Com uma semana de volta ao Brasil, peguei a passagem de ônibus para BH que eles haviam comprado pra mim para ir fazer a prova do vestibular, refiz minhas malas com as quais voltei da Nova Zelândia com as mesmas roupas e demais itens; visitei minha avó mais uma vez; fui ao Banco entender o que eu precisava fazer pra transferir o dinheiro da minha conta pessoal do Brasil para um Banco internacional (o Kim me ajudou também com isso lá da Nova Zelândia, pois pra resolver, tive que fazer várias ligações pra ele). E, por fim, chegando em BH, fui direto à agência de intercâmbio que meus pais tinham contratado para me levarem à Nova Zelândia um ano antes. Eles conseguiriam um visto de trabalho pra mim (graças aos meus sogros, pais do Kim, que assinariam minha carteira de trabalho como recepcionista do restaurante deles na cidade de Wellington), mas o visto levaria até um mês pra ser concedido. Com 18 anos, comecei a descobrir o que era decidir e resolver tudo sozinha. Deixei minhas malas escondidas debaixo das camas no apartamento dos meus pais em Belo Horizonte e tive que voltar pra casa, em Ipatinga, fingindo ter feito a prova do vestibular. Passei o Natal e o Réveillon em casa. A festa de Natal foi boa para que eu entendesse realmente que eu precisava fazer algo por mim mesma para não passar uma vida inteira definhando internamente diante do desinteresse dos meus pais com relação a mim e também com a frustração por não ter lutado pelas coisas que eu queria. Na noite de Natal, me presentearam com pijamas vermelhos, cor que não me cai bem, e com um Kit de calculadoras caras (meus pais sempre fizeram questão de dar dois presentes, um da mamãe, outro do papai), me dando os parabéns por minha ótima escolha de curso que garantiria meu futuro na empresa deles (mas eles não me deram os parabéns pessoalmente e sim à distância, em um microfone!). Acho que a intenção era mesmo me ‘encurralar’, pensei. Além dos presentes que nada indicavam que eles quisessem me agradar de verdade, passei o Natal todo tendo que me esquivar das conversas dos meus pais para que não brigássemos na frente de todos. Numa conversa com meu tio Raul e meu tio Gilson, sou interrompida por meu pai que chega contando pra mim, diretamente, que ‘fulana’, filha de ‘cicrano’ passou no vestibular para medicina depois de morar 2 anos fora do Brasil e que isso sim era alguém inteligente em que eu deveria me espelhar porque eu estava correndo o risco de não ter passado nem na prova para contabilidade. Eu realmente estava me sentindo um ninguém naquela festa de Natal. Ainda bem que havia minha prima Lara pra me levantar o astral. Lara é seis anos mais velha que eu; desinibida, toca violão e eu sempre a admirei por ela saber exatamente o que quer da vida e correr atrás (ou será que eu invejava os pais maravilhosos que a apoiavam em tudo?). Ela queria cursar comunicação e ela sabia disso desde nova. Aos 16 anos, arrumou um emprego numa rádio local e, com quase 24 anos e formada em comunicação, Lara me contou, nessa triste festa de Natal, que a partir de janeiro do ano seguinte assumiria outro emprego, como roteirista, na afiliada da TV Globo da região de Ipatinga. O papo estava agradável, mas Lara teve de sair antes da ceia de Natal porque precisava pegar um vôo para Belo Horizonte onde encontraria seu noivo. Eles viajariam pra um desses resorts bacanas do Nordeste para passarem o Réveillon. Pra finalizar aquela noite de Natal, depois de todos os agradecimentos e orações, ao pegar meu prato pra me servir daquele banquete comprado de uma salgadeira famosa da cidade, minha mãe retira o prato das minhas mãos e me serve tudo que eu não gosto: salada de aspargos brancos em conserva (que segundo ela é chique e ninguém tem direito de não gostar de coisas chiques – mas eu odeio conservas!) e muita farofa com coentro. Eu também odeio coentro e ela insiste em afirmar que eu gosto. Pra não discutir, comi tudo, deixando a carne de peru pro final pra dar uma aliviada no meu paladar. Fui para o meu quarto dormir assim que minha avó se despediu de todos pra voltar pra casa dela de carona com meus tios, pais da Lara. Dois dias depois, meus pais brigaram mais uma vez comigo porque eu disse que não queria passar o Réveillon com eles na fazenda. Eu inventei que tinha combinado de ir a um baile com minha melhor amiga, a Mariana. Eles disseram que passariam toda a primeira semana de janeiro na fazenda e que era para eu ir de táxi pra lá no dia 1º. Será que eles realmente acreditavam que eu ia achar um táxi no dia 1º de janeiro que topasse encarar a estrada de terra enlameada pelas chuvas de final de ano? Por vezes eu me pergunto se é possível que eles realmente acreditem em certas coisas que dizem. Mas tudo isso calhou de ser perfeito porque na segunda-feira, 31 de dezembro, a dona da agência de intercâmbio me ligou, pela manhã, dizendo que tinham recebido meu passaporte com meu visto de trabalho e que eu poderia pegá-lo a partir do dia 2 de janeiro e que a passagem que eu já havia pré-reservado para a Nova Zelândia no dia 3 de janeiro já poderia ser confirmada, já que o passaporte com o visto estava com eles. Confirmei todos meus dados com ela que ficou de garantir minha passagem. Então, no dia 1 de janeiro de 2008, numa terça-feira, rumei pro apartamento dos meus pais em Belo Horizonte, de carona com minha amiga Mariana que já tinha carteira de motorista e dirigia seu Mini Cooper novinho e me contava altas histórias sobre um rapaz que acabara de conhecer na festa de pré-Réveillon de um dos clubes da cidade com quem ela tinha se reencontrado no dia anterior. Me pareceu um rapaz bem interessado no dinheiro da família dela, mas nada comentei; a Mariana é super desencanada, daquelas pessoas que só vê coração, alguém realmente especial. E ela não sabia que eu estava indo, em poucos dias, de volta para a Nova Zelândia, indo sem intenção de voltar e isso fez meus olhos encherem de lágrimas quando lhe dei um abraço antes de descer do carro dela em frente ao apartamento dos meus pais em BH: “Não seja bobinha, vou estar de volta de Nova York em uma semana e aí a gente vai ter tempo de aproveitar juntas as férias”. A Mariana ia cursar Direito numa faculdade particular de Ipatinga porque não queria se mudar da casa dos pais. Enquanto a Mariana virava a esquina, eu ainda acenava, pensando se algum dia a veria de novo.

Cheguei de volta na Nova Zelândia em 5 de janeiro de 2008, um sábado. Recebida com abraços e beijos exagerados do Kim; ele, num certo momento, parou e me perguntou:
_Você tem certeza disso, não é? Sabe as consequências da decisão que tomou?
Eu confirmei e então ele abriu seu lindo sorriso, me deu outro abraço e, puxando as malas que ele se negou a dividir comigo, começou a me contar tudo que tinha acontecido com amigos da nossa escola nesses quase dois meses que passamos longe; quem havia entrado pra faculdade, quem havia arrumado emprego no cinema, quem tinha engravidado de quem, até que, do nada, ele se ajoelhou, pegou minha mão, largando as malas que carregava, e me disse:
_ Eu te amo, Anastásia Duarte! Casa comigo?
E, em meio ao pátio do estacionamento do aeroporto, ao lado do Mazda azul da década de noventa do Kim, eu acabei em prantos nos braços daquele que soube cuidar direitinho do meu coração machucado nos anos que se seguiram. Não casamos de verdade, mas sempre falávamos a respeito.

Voltando ao momento presente, percebo que minha mãe começa a se afligir com meu silêncio ao telefone e respondo com uma voz baixa que parece mesmo que arranquei do fundo da minha alma:
_ O Kim está morto, mãe, ele... Não acharam o Kim, não acharam nossos amigos. Aquela avalanche acabou com a vida deles!
Minha mãe não diz nada. Mas de certa forma fico bem com isso, pois a última coisa que quero dela agora são palavras de consolo. Meus pais nunca conheceram o Kim, a verdade é que eles nunca quiseram conhecer o Kim.
_ Anastásia! O que você vai fazer agora? - Minha mãe pergunta.
O que vou fazer agora? Será mesmo que minha mãe está preocupada com como me sinto? É um pouco difícil de acreditar, mas tenho que reconhecer a urgência com certo desespero na voz dela. Em lugar da minha resposta, surge outra pergunta dela que me abala ainda mais, pelo menos vindo da minha mãe:
_ Filha, por que você não volta para o Brasil?


Já são oito horas da noite, não fiz muita coisa durante todo o dia. Já não vou trabalhar há semanas! Não faz sentido, já que eu e o Kim trabalhávamos juntos nos restaurantes dos pais dele, os restaurantes 'Kiwis'. Eu e o Kim éramos responsáveis pela parte administrativa, contratação e treinamento de pessoal, pesquisa de mercado para adaptações do cardápio, controle da logística de compras, lidar com fornecedores, fazer propaganda, cuidar da imagem do negócio e cortar custos quando preciso. Enfim, o trabalho era muito, mas gratificante. Eu sei que posso fazer isso pelo resto da vida! Foram quase cinco anos trabalhando no Kiwis. Sei que meus sogros iam gostar que eu continuasse com eles, mas não sei ainda o que vou fazer. Aprendi muito trabalhando no Kiwis, inclusive a cozinhar com meu sogro que é o chefe de cozinha responsável do restaurante principal em Wellington. Quando me mudei de volta e por definitivo para a Nova Zelândia, já saí do Brasil contratada pelos pais do Kim que queriam me ajudar. Consegui meu visto de trabalho por causa disso. E lá chegando, acabei começando a faculdade de Administração junto com o Kim. Trabalhávamos e estudávamos. Paguei minha faculdade com o dinheiro da minha poupança do Brasil que transferi pra uma conta daqui (meus pais, desde que me entendo por gente, sempre depositavam um dinheiro mensal na minha conta poupança dizendo ser para a faculdade, o que, ironicamente, mesmo que não da forma que eles planejaram, acabou sendo mesmo). Quando eu ou o Kim tinha que faltar às aulas por causa do trabalho, o outro ficava responsável por inteirar o ‘faltante’ do conteúdo perdido e sempre estudávamos juntos. Os restaurantes Kiwis são três, em três cidades diferentes da ilha do sul da Nova Zelândia. São cidades relativamente próximas. O restaurante principal em que meu sogro não tem sócio é em Wellington, no qual trabalhávamos todos os dias. O Kiwis abrange também o 'Kiwis Bistro' em Christchurch e o Kiwis Undergraduated em Dunedin. Viajávamos para visitar os outros dois restaurantes de quinze em quinze dias. Eu e o Kim dividíamos essa tarefa. Costumávamos resolver tudo com os gerentes locais com um ou dois dias. Esses dois restaurantes, menores que o Kiwis de Wellington, demandavam apenas nossa assessoria, pois seus demais sócios são ambos experientes no ramo de restaurantes. Mas eu adorava visitá-los. Seus gerentes diziam que eu tinha um 'olhar perspicaz' pro negócio. E não deixa de ser uma verdade. Uma vez, analisando a disposição das mesas num horário de atendimento normal do Kiwis Bistro, constatei que se mudássemos algumas de posição, o fluxo de escolha delas pelos clientes aumentaria. Incrível o resultado disso. Numa outra visita ao mesmo restaurante, percebi que duas mesas estavam sendo evitadas. Os clientes se assentavam e logo em seguida queriam trocar por outra. Assentei na poltrona mais confortável e logo tive a minha meia calça desfiada. O acolchoado da poltrona estava com a tecelagem ressecada e áspera. Era hora de escolhermos outro material para revestir aquelas poltronas. Além desse quesito 'decorativo', sempre fui boa em analisar o porquê de acontecimentos como um mesmo prato ter boa saída no restaurante de Wellington, sendo rejeitado pelos clientes no bistrô de Christchurch. Num desses casos, descobri que a marca do gengibre em pó usado na execução de um dos pratos não era a mesma nos dois restaurantes e uma delas era um desastre por conter condimentos de sabor artificial. Também fui eu a criadora do drink que mais vende no Kiwis de Dunedin, o ‘Good Point’, feito com blueberries e adorado pelos universitários. Então, claro, ao longo desses anos, fui ganhando admiração e respeito por meus colegas de trabalho; cheguei, inclusive, a fazer um trabalho de consultoria com resultado super positivo num pequeno restaurante, numa estada de quase um mês em Auckland, cidade que fervilha de gente e de acontecimentos na ilha do norte da Nova Zelândia.
Voltando ao restaurante do meu sogro, por lá se servem pratos de batata, cogumelo, carne de cordeiro e pratos inventados por meu sogro que é realmente um cozinheiro espetacular, tendo aprendido muito do que sabe com seu pai que já era dono de um restaurante com outro nome à época dele. Aprendi a cozinhar muitas coisas com meu sogro que sempre demonstrou por mim um carinho muito especial. Ele adora dizer pra todo mundo que sou melhor que ele na cozinha. Sempre sorrio ao lembrar do jeito que ele diz isso, apesar que isso é uma grande mentira. Mas tenho que reconhecer que descobri que amo cozinhar e que sou bastante empenhada em aprender. Compro livros, principalmente de culinária francesa que adoro e cujas técnicas me encantam, mas todo o tempo que tenho para cozinhar é à noite e nos finais de semana, quando tento praticar meus novos aprendizados. Já meu sogro, ele sim, é um brilhante cozinheiro e cozinha desde muito pequeno, acompanhando seu pai. Ele chama de ‘invenções’ os novos pratos que cria pros restaurantes e, nelas, ele mistura ingredientes da culinária de diversos países e sempre surpreende os clientes. Acho que seria a cliente número 1, não fosse o fato de eu trabalhar e comer de graça ali. O Kim nunca soube cozinhar, mas o irmão dele acabou de voltar da Espanha onde estagiou como cozinheiro em um restaurante escola durante dois anos. Hoje ele trabalha com meu sogro dentro da cozinha do restaurante de Wellington.
Sei que não posso continuar sem trabalhar, sei que as contas vão chegar e minhas economias não vão durar muito. E a voz da minha mãe sugerindo que eu voltasse para o Brasil lateja em mim desde que falei com ela nessa manhã.
Abro a geladeira, tudo que vejo são os isotônicos do Kim que não consegui nem tirar do lugar. Um continua aberto exatamente como ele deixou na manhã em que saiu para a fatídica escalada. Sei que deveria comer algo, mas estou cheia de sair à rua, já que a história do Kim foi bastante explorada, tendo tido, inclusive, foto minha com ele publicada em jornal local. Todos me olham com pena, todos querem saber como estou.
_ Estou péssima! - grito em português para minha surpresa. É certo que nunca abandonei a língua, mas a verdade é que quase não falo português. Minha convivência com brasileiros se resume aos dias em que dou palestras para os intercambistas do meu país que chegam à cidade de Wellington – uma ex-professora minha do High School que ingressou na prefeitura três anos atrás, entrou em contato comigo para me oferecer o 'serviço': três palestras por ano para falar da cidade aos brasileiros com os temas 'adaptação'; 'estudos e comportamento adequados' e 'o que levar da Nova Zelândia com você'. Eu adorava isso, eram momentos importantes pra mim, mas hoje não sinto que fará sentido continuar. Embora as palestras tivessem que ser feitas em inglês, sempre após cada apresentação, ficava horas conversando com adolescentes brasileiros em português e muitos desses estudantes me procuravam durante todo o ano no restaurante do meu sogro em busca de alguma ajuda extra.
Preciso tomar uma decisão. Várias, na verdade. Preciso sair desse buraco de dor. Pego o telefone e ligo pra minha sogra que atende ao primeiro toque:
_ Anabelle! Sou eu, Anastásia... Como você está?
Ouço minha sogra dizer pouco sobre si mesma. Diz que temos todos que vencer esse drama juntos. Ela conta do marido que está trabalhando mais do que o normal no restaurante e do meu cunhado que está cuidando das questões legais que o falecimento do Kim exige. Eu a surpreendo com a notícia:
_ Anabelle... Decidi que vou voltar para o Brasil.
_ Eu temia por isso, Anastásia, mas nunca imaginei que decidiria isso tão cedo. Como está seu relacionamento com seus pais? - Ela pergunta.
_ Eles disseram que eu deveria voltar, acho que é o certo a se fazer. Vou sentir falta de vocês, mas... Tudo que sinto agora é que já não faz mais sentido pra mim ficar na Nova Zelândia. - Digo, apesar de a insegurança ser evidente em minha voz.
_Minha querida! Você alegrou muitos de nossos dias e fez o Kim um homem feliz. Te agradeço e te apoio. Nossa perda terá diferentes consequências para cada um de nós. E eu espero que você reconquiste aquele sorriso lindo que todos nós conhecemos. - Ela fala e eu preciso me segurar para não chorar.
Como não amar minha sogra? Gostava de dizer ao Kim que ele tinha muita sorte. Que sua mãe parecia já ter vivido milhares de vidas, se é que isso é possível, pois é evidente como ela é um ser evoluído. É incrível seu altruísmo. E eu vou sentir muita falta de seus conselhos sempre cheios de amor e preocupação genuína.

Foram meu sogro Alan e meu cunhado Mark que me trouxeram ao aeroporto. Despedi-me da minha sogra na minha casa. Ela ficou para entregar as chaves à imobiliária. Durante a última semana ela me ajudou bastante, empacotando doações, pertences do Kim que ela guardaria, e me ajudando a fazer as malas. Choramos, rimos, chegamos a dormir juntas numa das noites. E pensar que com minha mãe nunca dormi junto, nem quando criança! Sinto um nó no estômago, medo do que me espera, imagino. Sei que minha partida definitiva do Brasil foi traumática pra todos. Há um ano atrás eu cheguei a cogitar visitar minha família com o Kim, mas pra isso eu precisava achar que meus pais gostariam disso, o que descobri, tristemente, que não era verdade, pois eles negavam a existência do Kim na minha vida. Então já tinha feito minha cabeça que seguiria minha vida sem mais me preocupar com isso e que nunca mais voltaria ao meu país, por mais que sinta saudade de todos, especialmente da minha avó paterna e amigos com quem continuei mantendo contato através de e-mails e também cartas escritas à mão.

O alto-falante anuncia meu embarque com destino à Auckland, onde trocarei de avião com destino a Buenos Aires, na Argentina. De lá voarei direto pra São Paulo, já no Brasil, descendo por fim em Belo Horizonte onde pegarei o trem para a minha cidade natal que é Ipatinga. Uma das coisas que aprendi a gostar de fazer nesses anos longe do Brasil é viajar de trem. Tudo bem que por aqui na Nova Zelândia os trens e ferrovias são melhores e em maior número, mas como meus pais não se ofereceram a me buscar em Belo Horizonte, decidi viajar de trem pra Ipatinga, afinal, morei minha vida toda por lá e nunca fiz esse trajeto. Sem contar que a rodovia BR-381 continua perigosa nesse trecho e estou querendo mais tranquilidade no momento. Olho pro meu sogro e pro meu cunhado, dou-lhes um abraço sem palavras. Por fim digo um 'muito obrigada por tudo' e sigo de costas, ainda olhando pra eles. É difícil dizer adeus. Aceno e é mais do que hora de encarar minha realidade. Viro-me e apresso os passos. Em cerca de 30 horas estarei no meu país novamente. Não consigo parar de sentir pena por meu marido, mas verdadeiramente, bem aqui dentro de mim, parece que sinto mais pena de mim mesma. Não sinto ainda que estou fazendo a coisa certa. Sinto-me sem chão, sem significado, sem destino, sem alguém que me ame, sem um lar. Durante todos esses anos longe da minha família, cresceu em mim uma mágoa enorme dos meus pais. E isso maltrata demais a alma. Dúvidas de puro conteúdo emocional. Será que eles nunca gostaram verdadeiramente de mim? Será que eu ainda posso voltar a amá-los como na inocência da minha infância? Sinto-me criança de novo, chorando de medo, à noite, na cama, depois de ter sido expulsa do quarto dos meus pais quando procurava por proteção. Com quem posso contar? 





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