Casamento e seus tabus - Em busca de uma matemática que ajude! (Crônica, por Talita Cavalcante)

COLUNA DA AUTORA - CRÔNICA



Existem teorias e mais teorias sobre como fazer um casamento durar. 
Há simpatias, há leituras picantes para aguçar o sexo, há receitas de comidinhas pra agradar ao cônjuge, há também ideias para aproveitarmos nosso tempo livre a dois. Mas, fora as teorias, que não ditam nenhuma regra geral eficaz, há o amor em si, há o sexo em si, há o beijo em si, há o carinho em si, há o cozinhar a dois e há o que mais sustenta bons casamentos: a conversa em si. Mas boa.

Sim, a conversa. Mas conversa boa. Por boa entendamos como aquela conversa não apenas animada, em que um sempre tem motivos bons de contar algo ao outro. Isso também é essencial. Mas em conversa boa, assunto nenhum pode ser como pisar em cacos de vidro. É óbvio que se a esposa está em seu momento de TPM, o marido há de ter cuidados em falar-lhe (principalmente com a forma adotada!). Mas não pode deixar de falar-lhe! Isso é pior! Ou quando o marido tem algum trauma e certo assunto é complicado demais de ser levantado, a dificuldade em enfrentar não pode ser motivo de deixar o assunto virar tabu. Porque tabu é o que faz desandar muitos casamentos. É o assunto nunca dito. É o medo. É o desinteresse. É o dó ditando as regras. Se seu filho não come brócoli e nunca o experimentou, simplesmente aceitar que ele não come é o mesmo que não querer que ele evolua em seu paladar e saúde. É preciso sempre incentivá-lo a desenvolver-se naquilo em que ele está aquém da capacidade. Se podemos mais, adiante! Deixar-nos estagnar e também deixar o nosso cônjuge caminhar pra isso é caminharmos juntos para uma desaliança mais séria no futuro. Fujamos um pouco de assuntos e atitudes confortáveis demais, pois tudo tem que evoluir. Apesar disso, não nos tornemos um chato no casamento. Não estou dizendo com tudo isso que implicâncias ou lembranças o tempo todo de pontos negativos no outro deva ser feito. Tenho pavor do cônjuge que adora colocar o companheiro em assunto negativo, apontando nele defeitos, rindo de sua barriga saliente ou de sua careca, por exemplo. Respeito e carinho é preciso em todo tipo de conversa, principalmente naquelas que dizem respeito àquele com quem escolhemos nos casar. Nós todos mudamos a cada dia. Somos outra pessoa depois de um conhecimento maior que adquirimos, seja nas experiências do dia a dia, no trabalho, nas amizades, nos livros e estudos, assistindo a filmes e séries novos, conhecendo mais pessoas, mais lugares, enfim, mudamos todos, o tempo todo. Mas precisamos, no casamento, querermos mudanças boas em conjunto. Ação, exposição, posicionamento e questionamentos feitos a dois (mesmo que se chegue a opiniões diferentes, mas com um conhecendo e respeitando a opinião do outro) nos permitem um casamento mais interessante para ambas partes, com certeza!

Em casamento que assunto nenhum altera os ânimos, muita atenção! Sinal de que há algo de errado. É preciso envolvimento e comprometimento e, quer melhor sintoma que conversas exultantes? Quando o casal se importa em decidir junto e, o melhor, em fazer junto, a conversa tem tudo pra ser boa. E por boa também podemos considerar alguns puxões de orelha (em sentido figurado, por favor!). Importar-nos com nosso companheiro implica também darmos a ele alguns toques sobre condutas ou sobre intenções que não nos parecem adequadas. Importando-nos em vê-lo o melhor possível, seja em sua postura profissional, seja pessoal. Mesmo que se descubra, ao final, que quem esteja com mais bom senso é o outro, falar o que se passa é fundamental para que o casal evolua junto e chegue a um resultado novo e mais ponderado. São através das conversas de um casal que cada cônjuge mostra seu envolvimento e comprometimento com o outro. Vemos muito isso em termos profissionais e na educação dos filhos. Esse comprometimento surge com um carinho no canto da boca do outro para limpar resquícios do alimento, principalmente quando estamos num jantar com mais pessoas, por exemplo. Esse cuidado evolui para assuntos de grande importância como a profissão. Imagine um médico ou médica, advogado ou advogada, professor ou professora que lida com questões sérias e de relevância na sociedade e cujo trabalho deve incitar confiança, mas mesmo assim se deixam fotografar em redes sociais em situações que podem comprometer sua credibilidade! Seja em bebedeiras, seja em atitudes não esperadas que causem constrangimento para a imagem profissional dessa pessoa. Quando isso acontece com um cônjuge, o outro pode agir com cuidado para mostrar-lhe que isso não é positivo para eles. Em se tratando da profissão, a refeição de todo dia da família pode se ver comprometida, assim como a própria imagem. Cuidar do outro faz parte, mas é preciso que o casal se preocupe junto e que nenhum cônjuge se deixe ser capacho dos caprichos e ambições do outro. Cuidar junto, dizer não com carinho e apontar atitudes erradas da mesma forma é essencial para que ambos estejam satisfeitos no casamento. E os cuidados, quando se tem filhos, devem ser multiplicados. Conversas devem incluir quem deve controlar situações incômodas com os avós dos seus filhos. Se cada um dos cônjuges fica responsável por conversar com seus respectivos pais quando a necessidade de solução de problemas por eles gerados na educação dos filhos em comum se impõe, é isso que deve ser feito. Combinados são combinados e conversas ruins também são cuidados com o bem maior que são o companheiro e os filhos. Cuidados em conversas são algo esperado de todo casal que quer viver junto e feliz. Se alguém não concorda, a matemática da alegria talvez não ache outra fórmula. Mas se existir fórmula diferente com o mesmo resultado não há mal algum! O importante é cuidarmos um do outro em nosso casamento.

Se o assunto dinheiro sempre é tabu, atenção! Todo tabu pode esconder certas infidelidades, nesse caso financeira. Dinheiro deve ser assunto conjunto sim! É com ele que se planeja um futuro a dois, é com ele que se administra o presente, especialmente quando há filhos envolvidos. Dinheiro não tem tanta importância assim apenas entre casais de grandes fortunas, mas até entre eles é preciso conversar a respeito. O equilíbrio no assunto é demandado em qualquer casamento, mas clareza e segurança sobre o dinheiro do casal é essencial. É bom trabalharmos isso quando se está aquém das informações relevantes que nos permitirão planejamentos mais conscientes dos gastos e de futuras conquistas materiais em conjunto, como a educação de qualidade para os filhos, uma casa própria, viagens e outros investimentos.

E se dinheiro pode ser tabu, nessa sociedade em que ainda caminhamos a passos lentos para uma libertação dos tempos em que medo e submissão da mulher ao homem eram o que ditava o assunto nos casamentos, sexo também é algo que precisa ser muito conversado. Se não aprendemos com nossos pais a tratar o tema com naturalidade, é preciso um esforço pessoal nesse sentido. É preciso buscarmos por respostas que justifiquem e, ao mesmo tempo, possam aniquilar de vez o assunto como tabu. Somos seres da natureza e, por natureza, satisfação no sexo é o que procuramos, além da felicidade. Conversas e conhecimentos aprofundados são 'quase' garantia de bons resultados a respeito. O que não dá é não aproveitar toda sua capacidade no assunto e viver uma vida calada e aquém do potencial que se pode alcançar a dois.

Conheço casais que são apimentados na cama, mas quase não se sustentam em olhares e troca de palavras. Conheço casais que conversam o essencial, administram bem o lar, a educação dos filhos, mas, cadê o assunto e ato do 'sexo' no meio? Ficou pra trás. Há quem confesse às amigas... 'Meu marido não me toca há dias, há meses, há anos!" E as coisas nem sempre foram assim. O que muda? Muda que as conversas não foram divididas e aprofundadas como deveriam. Um mudou. O outro também. Mas mudaram um a parte do outro. Um não falou de sexo. Ou, se um falou, o outro não respondeu e ninguém insistiu. Não dividiram seus processos de mudança, nem particulares, nem das vontades na cama. E mudança, pra ser compartilhada, precisa da conversa ou da escrita. Mas somente em tempos de guerra o amor se sustentava por cartas. Nem mesmo e-mails e redes sociais modernos podem substituir o máximo de uma conversa entre namorados em que é preciso muita expressividade. Juntemos em expressão tudo de bom e não só a conversa. Pois conversa em si, já vimos, é essencial, mas nela, com ela, de mãos dadas, andam também o olho no olho, o toque e o carinho do som da fala, o calor dos atos. Usar a língua é essencial para a fala expressiva, portanto, não nos envergonhemos de usá-la abundantemente em todos os sentidos.

E se conversa boa sem tabus é ponto assertivo para um casamento bom (não apenas duradouro, mas bom e, porque é bom, é duradouro, haha), bem... Conversa ruim também é determinante para o fim precoce dos casamentos ou, se não consegue ser capaz sozinha de dar-lhes um fim, arrastará os casais nela envolvidos por momentos de muita consternação sem prazo de validade, aniquilando qualquer alegria que tente ganhar vida nesse meio. Frustrações e mais frustrações são alimentadas por essa conversa carregada de segredos ocultos que esses casais que não admitem questionar seus erros se evolvem como em uma bola de neve. Bastaria aqui um por quê? Por que fazemos o que fazemos? Que coincidência! Meu marido e eu estamos para completar 10 anos de casados em poucos dias e vou ganhar dele o último livro lançado do Mário Sérgio Cortella, chamado 'Por que fazemos o que fazemos?' Sim! É preciso questionarmos tudo. Não só no casamento. Mas enquanto ainda não li o livro do Cortella, voltemos ao assunto das conversas ruins em casamentos. Como meu marido sabe que gosto do professor e filósofo, autor do livro que comprou para mim? Porque conversamos muito, porque gostamos junto, porque evoluímos com questões levantadas também por esse grande pensador. E que triste são os casais que pouco sabem dizer que leitura mais fascina o cônjuge. E que mais triste é quando o desinteresse parte de um cônjuge só. Ao outro toda minha solidariedade! Pois isso existe e deve ser desesperador. Vemos esforços atrozes de uma parte só pelo bem caminhar da carroça. Mas é preciso rodas dos dois lados. Questionamentos sobre conversas devem partir das duas cabeças que decidiram viver juntas. Mas não falo de equilíbrio. Há quem se esforce mais que o outro por um casamento mais feliz e consegue! Mas há também aquele que poderia fazer dar certo, mesmo que a balança pese mais para si, porém, não consegue! Destrói tudo com cobranças. E cobrança afasta e desequilibra ainda mais os interesses em conjunto. Ninguém pode achar que seu cônjuge deve fazer tudo igual, que as contas devem ser rachadas meio a meio, que as tarefas domésticas idem. 'Medir tudo na régua destrói qualquer chance de sucesso', palavras do meu marido!

O sucesso das conversas está no interesse genuíno, na generosidade sem cobrança, na troca de ideias pelo bem comum e, claro, no amor. E essas qualidades e sentimentos, infelizmente, crescem ou diminuem juntamente à atenção conjunta que damos a elas. Nem o amor é eterno, que se dirá o casamento, mas o que ninguém diz é que eles podem entrar para a eternidade sim (ulalá!), sendo levados pelo casal, com a qualidade da atenção que um dá ao outro, dos olhares que trocam, dos beijos que roubam, dos toques que provocam, das línguas que exigem, do sexo que descobrem, das conversas que aprofundam e da manutenção dos interesses e satisfações tanto do casal quanto individuais. Que tal todos nós pegarmos esse bonde para a eternidade?



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5 comentários

  1. Quero te convidar para visitar o meu blog Café Feminices, estava parado e resolvi reativar. Tem um texto para leitura e debate lá - semana da mulher - se puder deixe sua opinião. Bjs

    http://cafefeminices.blogspot.com.br/2017/03/mulheres-que-reclamam.html

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  2. Gostei do seu dizer Talita!
    Penso que quando há amor,tudo entre o casal se fortalece e todos os acontecimentos viram aprendizado, principalmente com os desvios e as surpresas dá vida!...

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  3. Gostei do seu dizer Talita.
    Penso que quando há amor, com o tempo tudo entre o casal se fortalece e todos os acontecimentos viram aprendizado, principalmente com os desvios e surpresas da vida!...

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  4. @Marcela... Obrigada! Estou em busca de uma voz mais leve na escrita, querendo aprimorar-me. Com o tempo, acho que consigo melhorar. Mas muito obrigada pelo comentário, eu adorei! Um beijo.

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  5. @Anabela Jardim Que bom que o reativou! Passei lá e acho interessante levantarmos textos bons para discussão. Um beijo.

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"As redes de pescar palavras são feitas de palavras." Otávio Paz.