Eu, mãe, e meu contraponto ao 'Acabem com o tormento das festas de dia das mães na escola' de Rita Lisauskas

11.5.17 Talita Cavalcante 4 Comentários

Fotos: Pixabay


Acabo de ler o texto intitulado 'Acabem com o tormento das festas de dia das mães na escola' da Rita Lisauskas, colunista do Estadão e quem eu acompanho e gosto da escrita e pontuações levantadas periodicamente por lá. Ela tem muito a acrescentar a nós mamães. Porém, nesse texto, acho que ela equivocou-se no caminho trilhado. E considerando que somos mães e, antes disso, humanos, errar é algo impossível de evitarmos. O bom é que errar é sinônimo de ter tentado acertar e errando é que aprendemos mais, especialmente como pais, pois a medida de segurança quanto às nossas atitudes são o nosso coração e cérebro trabalhando juntos que nos dão. 

Nesse texto, a Rita deixou a empatia falar mais alto, seguindo só o coração, e entendo perfeitamente sua boa intenção em defender que se acabe em todas as escolas as festas comemorativas do dia das mães e do dia dos pais ao pensar em como algumas crianças ficam tristes por não terem nesses dias a figura da mãe ou a figura do pai a quem homenagear. Mas, mesmo entendendo-a, preciso discordar, pois há pontos realmente preocupantes com essa forma de olhar sobre a tristeza genuína das crianças. Não é porque algumas crianças cujos pais faleceram (e não que 'não têm mãe' ou 'não têm pai' como a Rita comentou em seu texto - toda criança tem pai e tem mãe, mesmo que não os conheça ou sendo eles falecidos) e crianças cujos pais não podem sair do trabalho no dia da apresentação escolar de seus filhos, não conseguindo, portanto, assisti-la, que a melhor decisão então seja abolir a comemoração. Não é porque algo que é feito para alegrar, mas possa em alguns casos entristecer que deva ser abolido. Não é porque meu filho tem diabetes que eu não vou levá-lo às festinhas onde doces são fartamente ofertados. Não é porque meu marido me traiu e eu me separei dele por causa disso que vou falar mal dele para meus filhos, cultivando dentro deles um sentimento ruim em lugar de permitir que eles continuem amando o pai e tendo com ele momentos felizes.

O raciocínio que a Rita conduziu em seu texto é empático, concordo, e é preciso mesmo amenizar a tristeza das crianças nesses momentos de apresentações escolares, mas evitá-las, escondendo delas a alegria de outros é equivocado. Elas precisam aprender a lidar com aquilo.
E quem disse que esse tipo de tristeza só acontece em comemorações dos dias da mãe e do pai? Até mesmo no Dia da Família da escola dos meus filhos eu vi uma vez uma criança chorando e a mãe explicando que o motivo era que os avós não puderam ir. 
Nós não podemos escolher tudo por nossos filhos. Melhores seriam outras condições para muitas coisas tristes, mas não temos como evitar a tristeza por vezes.
As crianças adoram suas apresentações escolares. Elas se preparam com ensaios, relacionam-se satisfeitos com seus colegas, aprendem músicas novas, coreografias, trabalhando em conjunto em prol de proporcionar alegria para si e para outros. Elas sempre preferirão fazer parte do contexto a fingir que ele não existe. O que elas querem, porém, é ajuda em lidar com as tristezas que podem ser despertadas. Elas não querem ser protegidas da verdade, pois seria frustrante perceber algum dia que viveram alheios a ela. Viveria sim numa bolha, a criança que fosse protegida de todas as adversidades da vida. Quem nunca se emocionou com essa grande lição em 'Procurando Nemo'?

A escola tem um papel interessante também ao abraçar a história da criança que por qualquer das razões que seja sofre em não ver seu pai ou sua mãe presente numa apresentação de comemoração do dia dele. A escola deve valorizar a história dessa criança, mostrando a ela que, por mais diferente que seja da história de outros coleguinhas, ela é especial da mesma forma e comemorar a mãe ou o pai, independente de como seja, é sim uma coisa boa. Mesmo que não esteja ali a mãe ou o pai para receber a homenagem, há sempre nas vidas das crianças de pais ausentes, outras figuras, representativas, que também merecem a alegria e a homenagem feita pela criança. E a escola pode e deve conversar com todos os pequeninos sobre essas diferenças de histórias e ajudá-los a enfrentarem com orgulho a sua própria.
Lembranças boas podem ser criadas para dividirem espaço com as lembranças ruins, amenizando-as ao reconhecê-las como importantes, mas não dominadoras a ponto de impedir-lhes momentos que podem ser felizes, por que não? O que é preciso para isso é apenas uma compreensão por parte da criança, com ajuda da família e da escola, sobre como melhor lidar com seus medos e tristezas.
Se deixamos nossas crianças abandonadas em seus mundos interiores sem ensiná-las a lidarem com suas emoções que terão reflexos no mundo exterior que é comum a todos e onde sentimentos e visões de mundo diferentes convivem o tempo todo, essa criança terá tudo para nunca mais sorrir de novo num dia das mães ou num dia dos pais. Nós não queremos que qualquer criança hoje passe a infância toda e por vezes a vida inteira a lamentar a ausência de uma figura na sua história.

Compreender as emoções dos nossos filhos e ajudá-los a quererem melhorá-las, é algo importantíssimo independente da idade em que se encontram, pois esse é um ato que demanda afeto e tempo de conversa com eles, tornando-os mais fortes e capazes de enfrentarem as adversidades da vida. Conversar é a melhor escolha. Orientar, contar a verdade. É disso que as crianças precisam. Escolher, porém, evitar a conversa dolorida, deixando de ajudá-los a entenderem melhor o que sentem, é um ato equivocado na minha opinião, pois é como se deixássemos de incentivá-los a subirem novamente na bicicleta depois de um tombo. É como se deixássemos de tentar fazê-los sorrir depois de sofrerem alguma decepção. É escolhermos cultivar aquele sentimento ruim dentro deles, seja ele medo, tristeza ou outro qualquer. O dó é um sentimento que muitas vezes leva-nos, mães e pais, a errarmos em algumas escolhas que hoje fazemos por nossos filhos, esquecendo-nos que, no futuro, eles precisam ser capazes de escolherem por si mesmos. E quando esse dia chegar, eles podem ou não conseguirem. O que queremos para eles? O que precisamos querer é que eles saibam lidar com seus sentimentos, conhecendo-os e fortalecendo-os nos momentos certos. Evitar conhecer seus sentimentos nunca será a melhor escolha pra nada. Só conhecendo-os poderemos melhorá-los, poderemos superá-los, poderemos substituí-los... Conhecê-los é essencial!

Algumas escolas estão deixando de oferecer comemorações culturais, como do dia das mães e do dia dos pais, para seus alunos. A escola em que meus filhos estudam, por exemplo, não têm festa junina. Eu gosto de festas juninas e seria divertido meus filhos participarem dessa festa na própria escola, porém, lá não tem. A escola está errada? Não. Ao matricularmos nossos filhos em uma ou outra escola, fazemos isso já sabendo de suas tradições e filosofias. E mesmo que não seja como gostaríamos, basta sempre conversarmos com nossos filhos a respeito de tudo e apresentá-los ao que tem de legal além da escola também. Então, também não há mal algum a escola não comemorar o dia das mães ou o dia dos pais. A justificativa para isso, porém, é que não pode ser a de evitar que algumas crianças se entristeçam, pois fica parecendo que a escola não tem paciência em ajudar as crianças com suas tristezas e frustrações e muito menos com as reclamações dos pais que nunca conseguem comparecer às festinhas, pois afinal, abolindo essas festas, esses problemas desaparecem junto, não é verdade? Se tal justificativa de evitar tristeza fosse real, não se poderia comemorar nada na escola, pois haverá sempre um na contramão do sentimento bom, seja um aluno que adoeceu e não pôde participar da festa para a qual ensaiou o semestre todo e ficou frustrado com isso, seja uma chuva forte que aconteceu em meio à dança das crianças causando transtornos e dando fim à festinha, enfim! Coisas tristes acontecem, infelizmente! E não podemos deixar de tentar alegrar nossos filhos por medo de que algo não caminhe exatamente como planejado. Nos dias de hoje, as escolas tem várias formas de trabalharem essas frustrações, especialmente a de pais que não puderam se deslocar do trabalho para estarem presentes, seja adequando os dias e horários das comemorações ou mesmo com a ajuda da internet, transmitindo ao vivo essas apresentações. Mas isso é o de menos, o que importa mesmo é dedicarmos nosso tempo a ajudarmos nossos filhos e as demais crianças de nossa convivência a enfrentarem a vida de cabeça erguida, com segurança e positividade.

Não sou uma mãe a favor de provocar frustrações nos filhos a fim de que eles amadureçam o quanto antes, apesar de ter sido educada com essa filosofia. Porém, também não sou uma mãe que não se choca quando se depara com uma opinião tão radical como a de ser melhor criarmos nossos filhos dentro de uma nuvem de onde não conseguirão enxergar suas tristezas, mas também onde não conseguirão viver tantas quantas alegrias mais poderiam viver se fora dessa nuvenzinha vivessem, ou seja, no mundo real onde sofrimento existe mesmo, mas também motivações várias para vivermos melhor apesar delas.



4 comentários :

  1. Adorei, sou filha adotiva, tenho duas mães é uma avó mãe e não tinha pai presente. Foi importante conhecer a verdade, amadureci. Pai, mãe, responsável é quem cria e doa amor. As comemorações são também necessárias para dar uma pausa na vida corrida e agitada e poder olhar com gratidão para nossos filhos, sejam biológicos ou de coração. Rótulos e exclusões ao meu ver não é o caminho. E que as escolas tenham sensibilidade para promover a inclusão e muito amor dessas crianças "sem pai, mãe" é que os responsáveis sejam acolhidos com amor.

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  2. Adorei o seu ponto de vista, muito bem explicado Talita. Gostei muito do texto da Rita tambem pois me fez refletir e olhar para mim mesma e saber onde eu e meu filho nos enquadramos nesta história. Eu particularmente vivenciei muitas situações parecidas e angustiantes em minha infância e meu filho também já está tendo que lidar com tais situações inexperadas que a vida nos proporcionou. Sabemos que cada um reage de uma forma diferente...emoções são geradas e mesmo quando tentamos administra-las da melhor forma nem sempre controlamos o que sentimos, ou a dor que sentimos. Não sou a favor de decisões radicais, tais como abolir a homenagem às mães, mas sou a favor de que temos que olhar com empatia às situações ao nosso redor. Diante disso cheguei a conclusão que as escolas deveriam todos os anos, homenagear algo/alguém diferente: um ano as mães, no outro seria os tios e assim por diante... trazendo para a vida das crianças a sensação de inclusão e ao mesmo tempo proporcionando a elas o oportunidade de serem diferentes. Penso que assim elas nao sofreriam a ansiedade de saberem que todo ano terá homenagem para mãe/pai e o delas não estarão presentes. Pois em algum momento elas teriam a quem homenagear.
    Abraços,
    Dani Perázio

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  3. @Lucy Mizael Que comentário lindo! Valorizar os bons sentimentos e os bons momentos torna mesmo mais amenos os sentimentos ruins que todos nós seres humanos carregamos! Suas palavras me ensinaram muito hoje, obrigada. Um beijo...

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  4. Oi, Dani... A empatia é mesmo a qualidade mais motivadora de ações boas dos seres humanos. Somos melhores por conta dela. Seu depoimento é enriquecedor pra mim também. E achei incrível essa ideia sobre valorizar o diferente. Um beijo...

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"As redes de pescar palavras são feitas de palavras." Otávio Paz.