Filhos narrados - Coluna da autora.

2.6.17 Talita Cavalcante 0 Comentários

Foto: Pixabay

Todos nós conhecemos filhos narrados. Várias vezes podemos percebê-los em nosso entorno. Eles são crianças cujos pais estão o tempo todo narrando o que eles gostam, o que eles são, o que eles devem fazer. O grande problema disso é que essas crianças sofrem de sufocamento sem saberem e, em algum momento, como forma de sobrevivência, se rebelarão contra seus pais. E esses pais? São pessoas más? Não! Esses pais, normalmente, são muito bem intencionados. Infelizmente, porém, eles nunca perguntam aos seus filhos sobre o que não gostam ou sobre o que realmente gostam, sobre o que os incomodam ou sobre como gostariam de agir. Eles apenas mandam, sem se preocuparem em adaptarem suas vidas às singularidades de suas crianças. Mais tarde sofrerão o que deveria ser uma grande alegria: a descoberta de quem são seus filhos. E, infelizmente, descobrirão ainda que são responsáveis por muitos dos sofrimentos que seus filhos carregam. Isso é triste. 

Pais que somos devemos evitar narrar as ações dos nossos filhos. 

Exemplo: 'Minha filha, diga o que combinamos de você dizer!' Talvez não haja nada de errado nisso desde que tenha sido a filha a pedir ajuda sobre algum discurso, mas caso a ideia não tenha partido dela e sim dos pais, há algo de grave aí! Impôr isso a uma criança é o mesmo que moldar o que deveria ser natural. Nenhuma criança deve nada a ninguém e deveria viver livre de amarras, fazendo e dizendo coisas que lhe ocorram naturalmente e que lhes façam felizes. Se for necessário ensaiar pra tudo, a criança crescerá achando que está sempre aquém, que está sempre errada. Ou seja, perde sua naturalidade e se recrimina por pouca coisa. Ela sofre calada, mas é possível percebermos que isso está acontecendo. Se uma criança se desculpar com um adulto por questões que não são de criança, como 'Desculpa-me, não estou arrumada' ou 'Desculpa-me, eu não te cumprimentei.', vale uma atenção especial para ela, pois não podemos deixar nossos filhos crescerem com auto-estima baixa.

O que pode ajudar: Nunca obriguemos nossos filhos a cumprimentarem alguém na frente desse alguém. Se queremos orientá-los a isso, façamos em um momento particular e, mesmo que eles não se lembrem no momento certo, relaxemos! Eles são crianças e devem viver a vida leve como tais! Nunca 'voltemos a fita' da vida dos nossos filhos. Um abraço e um oi ou um 'vamos brincar' já são bons cumprimentos entre crianças e não se deve obrigá-los a voltarem do que já estavam indo fazer para dizerem 'olá' ou 'obrigado'. Isso é não deixá-los escreverem a própria história. Isso é querer narrar a vida dos filhos. E narrar, infelizmente, causa afastamento de todos. O narrador acha que conhece bem seu personagem, mas, ao final da história, pode ser quem mais há de surpreender-se com ele. 

O grande segredo de pais que querem ser parte da história dos seus filhos é se importarem em tornar a vida deles leve e agradável, o que os torna próximos por mais distantes geograficamente que possam estar. E para isso, basta não repreendê-los por bobagens, basta não compará-los com irmãos ou amigos, basta apoiarem suas decisões corriqueiras, basta sorrirem para suas atitudes de crianças, como subir em árvore, assentar no chão, desenhar na terra com um graveto... A correção é muito importante em qualquer educação, porém, devemos corrigir nossos filhos apenas nas atitudes que exigem essa correção, pois moldes para características e gostos pessoais e para momentos divertidos são sempre falhos e só fazem entristecer as crianças que se veem corrigidas naquilo que são sua essência, naquilo que mais deveriam amar nelas mesmas: suas singularidades.

Sejamos pais atentos e amorosos, porém, não queiramos narrar a vida dos nossos filhos. O maior presente para um pai e uma mãe é ser o expectador mais perto. Nossos filhos agradecem... Mas, por favor, não precisam agradecer a mamãe ou ao papai 'literalmente'. Isso é o mínimo que podemos fazer por vocês.








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