É hora de falar dos nossos sentimentos


Eu não sei você, mas eu não aprendi com meus pais a interpretar e expressar o que sentia. É preciso conversas pra isso, não é? É preciso uma preocupação do outro com o que você está sentindo, um estímulo, um empurrãozinho quando somos crianças. Mas quando nos tornamos conscientes de nós mesmos, respondendo sozinhos por nossos atos, entrar em contato com nossos sentimentos passa a ser finalmente buscado ou continuamente reprimido, evitado. E um empurrãozinho nessa fase adulta também não seria de nenhum mal...

Buscar entender nossos sentimentos trata-se agora de uma escolha, como quase tudo que diz respeito aos nossos pensamentos, às nossas ações decorrentes deles. E um empurrãozinho pode ajudar, mas já não surte efeito tão bom quanto na infância. Acho que é por isso que é tão difícil ter a coragem de buscar por nós mesmos, em meio a emaranhados de sentimentos incompreendidos. É por isso que muita gente passa a vida inteira sem nunca refletir sobre a pergunta 'Quem sou eu?'. Exige muito de nós, especialmente um enfrentamento dos traumas, erros e acertos presentes na nossa infância.

Nós adultos muitas vezes evitamos a grande verdade de que continuamos as mesmas crianças, praticamente com os mesmos sentimentos se não os enfrentamos.

A pessoa com quem mais consigo expressar meus sentimentos é meu companheiro da maioria dos meus bons momentos, meu marido, com quem descobri, já adulta, um dos meus melhores sentimentos: o amor romântico.

Certa vez li num livro chamado 'A coragem de ser imperfeito', de Brené Brown, um depoimento de um psicólogo chamado John Gottman em que ele contava sobre uma pesquisa a respeito da construção da confiança (super necessária pra termos coragem de dividir com o outro o que sentimos verdadeiramente). Nesse depoimento, ele usou um exemplo do próprio casamento:

"Certa noite, eu queria muito concluir a leitura de um livro policial. Achei que soubesse quem era o assassino, mas estava ansioso para confirmar minha suspeita. A certa altura, coloquei o livro na mesa de cabeceira e me levantei para ir ao banheiro.
Quando passei pelo espelho, vi a imagem refletida de minha esposa, e ela me pareceu triste, escovando seus cabelos. Era um momento de porta entreaberta. (Ele chama assim aqueles momentos muito pequenos em que a confiança é construída nos relacionamentos - e que na falta desses momentos, tudo sai dos trilhos e, lá na frente, já não sabemos mais qual a causa de ter dado errado).
Eu tinha uma escolha. Poderia sair daquele banheiro pensando: "Não quero lidar com a tristeza dela esta noite; quero ler meu livro." Mas, em vez disso, talvez por ser um sensível pesquisador de relacionamentos, decidi ir até ela. Segurei a escova que estava em suas mãos e perguntei: "O que está acontecendo, querida?" Ela me disse que estava triste.
Naquele exato momento, eu estava construindo confiança; eu estava ali para apoiá-la. Eu estava me conectando com ela em vez de escolher me dedicar apenas ao que eu queria. São em momentos assim que a confiança é construída.
Um momento como esse pode não parecer importante, porém se nós sempre escolhermos virar as costas para as necessidades do outro, a confiança no relacionamento vai se deteriorando - lenta e gradualmente."

Com esse exemplo e essas palavras, vemos como são importantes os tais momentos de porta entreaberta... Em qualquer relacionamento! Seja com nosso amor, seja com nossos filhos, seja com quem convive de perto com a gente: colegas de trabalho, funcionários domésticos, com todos! É mais do que essencial nos importarmos. Dar importância ao outro é colocar em prioridade o bem estar dele. E bem estar está diretamente relacionado a sentimento. Se sentimos mal estar, desconforto, sentimentos ruins afloram.

É preciso buscarmos a razão dos nossos sentimentos ruins aflorados. É preciso pedirmos ajuda, termos a coragem de falar claramente sobre esses sentimentos, prestando atenção também aos sentimentos do outro. Por vezes achamos que só estão na gente esses sentimentos ruins, mas normalmente é uma bola de neve que arregaça com todos da nossa convivência. 
O triste é quando um culpa o outro e o outro culpa o um.
Precisamos pedira ajuda, pedir ações importantes do outro, mas sem culpá-lo pela falta dessas ações no passado. Quando vira 'cobrança', o pedido não tem mais valor. E se é 'cobrança', o outro não vai mudar de atitude. Ele vai valorizar mais o mal sentimento de 'ser cobrado' do que o bom sentimento de, porventura, mudar seu olhar sobre os sentimentos do outro.

Relacionamentos são tão complexos que alguns preferem evitar diálogos. Não há discussões, mas também não há conversa ou atenção para o que o outro está precisando naquele momento.

Priorizar a família, o amor que escolheu para viver ao lado já não é tão natural quando se tem ali fácil, bem ao lado. É preciso aquele tal 'empurrãozinho' que falei no início do texto. Um puxão de orelha de alguém que te ama.

Mesmo que seja dolorido, reconhecermos que não temos agido priorizando o outro às nossas vontades particulares é crucial para ser ter um relacionamento com estruturas fortes para aguentar qualquer furacão. E essa estrutura, concordo com o autor acima citado, depende desses momentos de porta entreaberta.

Em um outro livro que lia, chamado 'O lado difícil das situações difíceis', de Ben Horowitz, outra passagem me fez lembrar dessa construção da confiança no outro, dessa vontade de fazer um relacionamento se fortalecer com o tempo e não o contrário, como vemos muitos por aí enfraquecendo:

"Num dia muito quente, meu pai foi nos visitar. Não tínhamos dinheiro para pagar ar-condicionado. As três crianças choravam, meu pai e eu suávamos sob o calor de 40 graus.
Meu pai me encarou e disse: 'Filho, tem uma coisa que é muito barata. Sabe o que é?'
Eu não tinha a menor ideia do que ele estava falando e respondi: 'Não. O quê?'
Ele falou: 'Flores. Flores são muito baratas. Mas tem uma coisa que é muito cara. Sabe o que é?'
Mais uma vez, respondi: 'Não. O quê?'
Meu pai falou: 'Um divórcio.'
Alguma coisa naquela fala dele, que não era uma brincadeira, me fez perceber que meu tempo tinha se esgotado. Até então, não havia tomado nenhuma decisão séria na vida. Achava que tinha possibilidades ilimitadas e podia fazer ao mesmo tempo todas as coisas que quisesse. Mas o que em um primeiro momento pareceu uma brincadeira fez que eu percebesse, de repente, que se prosseguisse naquele caminho, acabaria perdendo minha família. Por querer fazer tudo, fracassaria no que era mais importante. Pela primeira vez me obriguei a ver o mundo pelo ponto de vista de prioridades que não eram minhas. Achava que poderia me dedicar à minha carreira e a todos os meus interesses e, ainda assim, construir uma família. Mais ainda, sempre pensava em mim em primeiro lugar. Fazemos parte de uma família e de outros grupos, e esse tipo de pensamento pode nos meter em encrenca - e eu estava encrencado. Na minha cabeça, tinha certeza de que era uma pessoa boa e altruísta, mas minhas ações diziam o contrário. Era hora de deixar de ser um menino e virar homem, dar prioridade às coisas mais importantes. Antes de pensar em mim, precisava pensar nas pessoas que mais amava."

Escrevo sobre isso porque entender nossos sentimentos é um processo contínuo, eterno! Achei incrível o depoimento acima por dois motivos: o cara é um empresário de sucesso e mesmo assim ele escolheu não deixar de lado sua família. É fato que ele precisou do pai dar-lhe um puxãozinho de orelha pra que ele enxergasse isso, mas nós todos podemos fazer essa mesma escolha por nós mesmos!

Sabemos que a maioria dos grandes nomes do capitalismo, empresários famosos e com conhecimento admirável são muito bem sucedidos em suas empresas, mas são fracassados em seus relacionamentos. Diversos ex-casamentos, diversos filhos crescendo sem o apoio necessário de seus pais milionários. São escolhas. Não é mesmo humano conseguir tudo. E cada um escolhe suas prioridades na vida. Seria bom se ninguém que prefira o sucesso profissional tivesse filhos. Mas normalmente as pessoas acham que dão conta de tudo e a verdade é que é possível conciliar sim, mas é difícil,pois impõe aquela grande questão da construção de bons relacionamentos: priorizar o outro nos momentos de portas entreabertas de que falamos.

É preciso muito autoconhecimento e muita conversa sobre sentimentos, priorizando quem amamos e  então fazendo um bom trabalho geral com equilíbrio, com apoio das pessoas que nos são mais importantes.

Mas é fato que quando no relacionamento um prioriza o outro sempre e o outro se nega a deixar de focar apenas nos seus interesses (que lhe são prioridade), o caminho é desgastante, os maus sentimentos são aflorados e as coisas podem complicar.

Tem gente que não entende, mas tá aqui nesse texto o grande segredo de fortalecermos o amor, multiplicando-o no lugar de o ir dividindo: é torná-lo prioridade mesmo! Mas tem gente que não quer isso... Esses não podem, portanto, querer terem tudo. Com essa prioridade, porém, é bem possível que possamos conquistar o mundo todo...

Quais são seus sentimentos? É preciso falarmos deles...





É hora de falar dos nossos sentimentos É hora de falar dos nossos sentimentos Reviewed by Talita Cavalcante on setembro 22, 2018 Rating: 5

Nenhum comentário:

"As redes de pescar palavras são feitas de palavras." Otávio Paz.

""Obrigada por visitar e compartilhar! Inscreva-se no YouTube!""

Tecnologia do Blogger.