Reduzir para viver melhor - minimalismo?


Quando se nasce em uma casa em que cada coisa tem seu dono, 'nosso' quarto passa a ser 'nosso' mundo. Nele, apesar de não se poder mudar muita coisa de lugar, já nos sentimos melhor por ter aquele cantinho pra chamar de 'nosso'.

E esse sentimento de posse, de ter coisas, não faz parte do mundo capitalista apenas. É da nossa natureza humana usar nossa cabeça para transformarmos nosso ambiente. Nós inventamos as 'coisas' em prol de uma vida melhor. Desde sempre! Mesmo quando éramos nômades e carregávamos tudo que tínhamos nas costas temos coisas para carregarmos.

Mas o que carregar com a gente? O que ter e o que não ter?
1000 pares de sapatos como a Ana Hickmann? 10 sofás numa casa?
Talvez 4 casas?

Dinheiro e coisas! Coisas e dinheiro! Uma compra a outra e a outra consome a uma.

Necessário comprar. Necessário ter.

Mas o que ter sem ficar escondido por trás?

Já reparou que muitas pessoas aceitam serem definidas pelo que têm?
Já reparou como exibimos nossas 'posses' em nossas redes sociais?

Algumas pessoas fazem com propósito de mostrarem, pelo rótulo que querem pra si. As marcas vêm antes delas mesmas que sequer conseguiriam responder à pergunta "quem é você?" sem citar 'coisas', 'nomes de marcas', 'preferências de custos altos'.

- Tantas bolsas Channel em destaque numa selfie!

É bem triste ver que muitas pessoas hoje não sabem o que dizer sobre si mesmas sem 'mostrarem' algo.  É um exercício interessante tentar chegar a respostas sobre nós mesmos sem que tenhamos que falar do nosso endereço residencial ou do que compõe nossa imagem. 

A classe do assento aéreo muitas vezes significa mais do que como aproveitam o tempo de conforto ali dentro. Não importa o conteúdo do livro que leram, importa apenas a foto da capa do livro ou a foto do brinde com a champagne.

E se pintamos a tela das palavras que escolho para esse texto, que coisa boba temos! Até mesmo quem porventura já fez algo do tipo (todos nós?) percebe agora o ridículo.

E vem então a grande pergunta:
Quem sou eu por trás de tantas coisas, compras, consumo?

Quem é você além da sua bolsa cara, sem suas roupas de marca, sem seus sapatos de vanguarda?
Quem é você longe dos holofotes da internet? Das curtidas das redes?
Quem é você sem seus 'oclões'? Sem seus brincos e anéis?
Sem seus carros importados e ternos de grande alfaiates?

É por isso que o ter condiciona o ser.
É por isso que reduzir o ter ajuda a compreendermos o que somos, o que queremos ser.

Mas não sou minimalista. Acho que é bom usarmos nossos esforços e dinheiro pra termos uma porção de coisas. Sei que é bom! Tenho coisas boas também. Minha calça mais cara custou 80 reais, mas minha batedeira custou 30 vezes isso!

A calça uso uma vez por mês, a batedeira uso quase todos os dias.

Ostentar o que se tem é algo comum da natureza humana nas redes sociais e no nosso dia a dia também. E, afinal, o que a gente gosta de usar, a gente recomenda mesmo, não é?

É bom recomendar, mas é bom também nos conhecermos bem, sabermos exatamente o que nos satisfaz para não nos tornarmos vítimas da comparação com o estilo de vida e com as posses de outras pessoas.

Que importa a Ana Hickmann usar do seu canal pra 'mostrar' suas posses? Nenhum. Ela gosta disso, ela está satisfeita com a vida dela e, por isso, ela mostra.

Mas se a pessoa que a assiste não se conhece, está frágil com seus sentimentos (pois não os compreende, não os questiona), poderá sim comparar sua vida à da Ana Hichmann e sofrer por não 'ter' nada parecido com tudo aquilo que a outra tem.

Mas entenda que pode-se viver mal de qualquer forma.
Vive-se mal tendo pouco e vive-se mal tendo muito.
Conhecemos histórias dos dois lados da moeda.

Porém, vemos que hoje em dia, há cada vez mais pessoas tendo cada vez mais coisas, querendo cada vez mais coisas, entupindo suas casas de valores sem significado, de utilidades sem usos, provocando esse desejo infundado em muitas 'mentes fracas e sofridas' por aí.

Chega-se naquela matemática: guardas-roupas lotados, sapatos em caixas esquecidos em armários, livros sem uso e sem destino, panelas que nunca se aquecem, inúmeras malas que não cabem em casa, e a pessoa lá, por trás, gastando tempo demais para decidir que roupa usar pela manhã, tempo demais para decidir o que cozinhar e acabando por decidir jantar fora ou fazer sempre o mesmo ovo sem óleo em panela que vale como jóia. Ovo sem gosto, sem nutriente também, ovo de galinha que nunca soube, tadinha, o sabor de um bom verde que não é detox congelado.

O cenário em que muitos se encontram passa a ser bem esse: comer comida produzida enganando a natureza, para manter-se magro e lindo, para poder atrair clientes magros e lindos, pra poder comprar carro caro, pra poder passear por aí e casar-se com o mais curtido da internet, comprar mobílias assinadas, chegar em casa de madrugada, passar os fins de semana em salões de beleza e em lojas de roupas e sentindo aquele terrível vazio por dentro.

Um vazio que todo dia se tenta preencher com um vinhozinho, ou um sapatinho, ou um carrinho, casinha, roupinhas, restaurantezinhos, joinhas, malinhas, enfim... Vazio que provoca reclamações sem fim: "Ah! Não tenho tempo de organizar meu guarda-roupa', 'não tenho tempo pra cozinhar', "não tenho tempo pra curtir meu sofá", "não tenho tempo pra ler nenhum dos 20 livros que comprei esse ano", "não tenho tempo pra pedalar minha super bike", "não tenho tempo pra separar os sapatos pra doação".

Ou mesmo um vazio que tenta-se não enxergá-lo, evita-se conhecê-lo...

A vida passa e o cenário muda. Com sorte, muda! Torça para que mude! Veja que linda palestra dessa senhora para o TED (clica aqui).

Mas a gente não quer deixar que a vida corra, conosco por trás de tantas coisas, não é?

Eu quero sempre repensar.
Panela nova? Doação da velha.
Brinquedo novo? Revisão dos outros.
Roupa nova? Nada de cabide novo!
Já deu pra entender né?

Vida boa, pra mim hoje, parece-me aquela em que eu tenho, mas não deixo o ter me ter.
É essa em que vejo meu guarda-roupa espaçoso, meus pés sempre confortáveis, em que uso o que amo. E uso muito, de novo e de novo.
Em que uso tudo que tenho, sem precisar desejar por mais. Mas, precisando, compro, substituo, levo pra quem não tem aquilo.
Não sou contra comprar, mas sou a favor de usar tudo que compramos. Mas não é usar uma vez por ano, é usar sempre. Se não há tempo para algo em nossas vidas, pra que comprar?

Descobri que quem deseja muita coisa, não faz muito uso do que já tem. Ando na contramão disso.

Me preparo para visitar os States, país do consumo. Compras serão inevitáveis, mas há perguntas boas e necessárias que espero que possam me ajudar a não comprar nada apenas por comprar:
- O que comprar? Preciso? Vou usar muito?
- O que não comprar mesmo que seja a coisa mais fofa do mundo?
- O que quero fazer e conhecer por lá?
- Como quero me deixar transformar nessa viagem? (Ótima pergunta pra qualquer destino).

Precisamos mesmo reduzir para viver melhor?

O que já sei é que vivo melhor quando percebo que amo tudo em meu entorno e esse tudo é pouca coisa. Trata-se mais de gente e da minha consciência livre, da minha liberdade em dizer não pra esse tanto de excessos e exibicionismos. Então acho que sim, vive-se melhor quando se tem menos, mas quando se usa o que tem. É um bom caminho de vida, mesmo que não seja extremista, realmente minimalista, pois afinal, eu preciso muito da minha batedeira, do meu computador onde escrevo, do meu carro e das coisas que proporcionam momentos 'bem vividos' para mim, para minha família!

Compremos! Mas conheçamo-nos antes de sair comprando coisas que nem de longe têm a ver com nosso estilo de viver...



Saiba que todo sábado, sai textos como esse aqui no blog. Essa é minha coluna semanal e espero que possamos refletir juntos. Sua colaboração com comentários é muito bem-vinda! 
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Reduzir para viver melhor - minimalismo? Reduzir para viver melhor - minimalismo? Reviewed by Talita Cavalcante on novembro 24, 2018 Rating: 5

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